Cinema Em Casa

04.11.2009 gilvas 1 comentário

O Cineclube Desterro está fechado há um bom tempo, e janeiro ainda parece bem distante, e eu preciso canalizar meu instinto criador de resenhas pedantes no campo do cinema, portanto vou falar do que tenho visto em casa. Aliás, porque eu não pensei nisso antes? Read more…

Arthur C. Clarke and Gentry Lee: The Garden Of Rama

30.10.2009 gilvas 2 comentários

Clarke, a despeito da notável pilha de títulos, não exercita uma prosa especialmente atraente. A descrição de seus personagens é direta e seca, subtraindo-lhes a graça que um criador melhor versado em letras poderia proporcionar. A imaginação do homem compensa essas faltas, ou eu não teria passado da leitura de seu primeiro volume. Uma elucubração é o que busco, e não uma crítica óbvia.

Elucubrando, então: existem autores que se demoram descrevendo suas criaturas, e há os que, sobrenaturalmente, conseguem extrair um pacote completo de personalidade a partir de uma única pincelada. Não é o caso de Clarke, conforme colocado no parágrafo anterior. Chovem descrições do tipo “João entrou na sala. Ele era apaixonado por Maria desde que se conheceram.”, descrições que poderiam ser deduzidas pelo leitor, e não lançadas em sua cara tão diretamente. Porque um escritor experiente Clarke se limitaria assim? Read more…

A Vergonha Alheia

26.10.2009 gilvas 7 comentários

Sofro de constrangimento alheio, ou seja, fico envergonhado quando alguma pessoa paga algum mico. Mesmo que eu não conheça a pessoa. Mesmo que ela própria não se sinta envergonhada. No caso dos modelos das propagandas de uma certa fábrica de sorvetes, eles sentirão vergonha no futuro, quando forem confrontados com as piadas cruéis que este tipo de situação suscita. Talvez sejam impedidos de concorrer a cargos políticos relevantes. Imagina o medo de um candidato a síndico, temendo ser surpreendido, por um concorrente ou detrator e a qualquer momento, com imagens retiradas do arquivo infame da publicidade mambembe. Read more…

A Improvável Arte de Empurrar

22.10.2009 gilvas 5 comentários

Cena: Toca o telefone, eu atendo, o sujeito se identifica, e diz que quer falar com o Senhor Gilvan Tessari, assim, em letras maiúsculas. Pode ser uma moça também. Assim como o gênero, o sotaque também muda, ao sabor dos incentivos fiscais para implantar callcenters em lugares improváveis, e levar aos povoados distantes a modernidade em forma de empregos civilizados. Ironia, claro.

A probabilidade maior, levantada pela observação do meu próprio campo amostral ao longo de dez anos, é de que seja cartão de crédito ou conta em algum banco safado que me vê como um vampiro enxergaria uma vítima, mas assinaturas de revistas têm uma boa fatia na incomodação. Vai longe o tempo em que me ligavam de instituições filantrópicas, e a razão disso constitui, para mim, um mistério. Que não pretendo investigar, muito obrigado, estou bem assim. Read more…

Capitalismo ptIV: Produção Cultural

Por baixo das banalidades da existência humana, devem existir ondas, como as de um profundo e violento mar subterrâneo. Estas vagas diluvianas explicariam porque certos assuntos voltam a nos assombrar com tamanha persistência, de tempos em tempos. O assunto que assombra esta noite tenebrosa, úmida e fria de outubro são as mazelas de tempo de execução do sistema econômico sob o qual vivemos. Como sou um escritor que preza por uma certa dose de relevância, foco hoje meus resmungos nos sucedâneos que nos vendem à guisa de cultura.

A Revolução Industrial definiu novos parâmetros para as atividades humanas, e centrou os esforços na criação de excedentes, alcançados pelas máquinas, pelos novos processos e pelas novas formas de exploração da mão de obra. Os socialistas utópicos novecentistas, que mais pareciam anarquistas em sua expressão, imaginavam que tal excedente permitiria que as pessoas tivessem tempo livre para se dedicarem às artes e a idéias elevadas. Eles morreriam horrorizados caso fossem colocados subitamente diante do panorama atual. Read more…

Ane Brun: Spending Time With Morgan

14.10.2009 gilvas 1 comentário

Ane Brun entrou para a minha calçada particular da fama por suas contribuições inequívocas e profundamente relevantes na descrição do estado do apreciador de cançonetas populares quando este se depara com uma iguaria ainda em processo de assimilação. Esta primeira frase do texto atual, se não assustou um possível leitor com sua construção macarrônica, mostra o quanto é difícil demonstrar o que sente o vivente quando se apaixona por uma música que nem sabe cantar direito. Humming One Of Your Songs fala disso, e com uma simplicidade que te esmaga. Duvida? Então segue a letra: Read more…

Pele Impressa

08.10.2009 gilvas 2 comentários

Martin Rossiter cantava, na primeira canção do segundo álbum do Gene, algo como a whole life led/with every minute spent/trying to feel things/no one has ever felt. Ou algo assim. Pode soar como a confissão de um adicto de drogas sintéticas ou o credo de um esportista radical dos mais chatos, mas eu leio estas linhas como um manifesto de busca dentro da vida. Tentar coisas diferentes, sentir coisas diferentes, se é que você me entende.

Minha busca é tímida, confesso. Não sou dado aos vôos soltos e inconseqüentes, e há alguma bibliografia mental sobre o assunto, algo que não vale a pena ser consultado neste momento. Assim, prossigo: não há grandes feitos ou passos imensos, e mesmo as desistências podem se enquadrar facilmente nas prateleiras da banalidade. Eu, por exemplo, desisti de ter uma tatuagem. Ou mesmo duas, talvez mais do que isso. Read more…

Peter Docter: Up

06.10.2009 gilvas 1 comentário

Tive poucas experiências em cinema com recurso 3D. Especificamente, foram duas. A primeira se deu com a terceira parte de Era do Gelo, onde a franquia mostra que está perdendo fôlego: as repetidas citações e as repetitivas correrias, sem falar na excessiva exposição de Scrat, aproveitam-se das possibilidades da profundidade expandida para evitar o fato de que não há muitos caminhos por onde levar Sid, Diego e Manny.

Observando a turba presente na exibição, reparei que existe uma disparidade considerável entre a expectativa do freqüentador de cinema de xópis e o que o cinema tridimensional efetivamente entrega. As reclamações são explicitadas em diversos formatos, mas o conteúdo é o mesmo: as pessoas entram no cinema esperando mirabolantes sensações, com objetos do filme atravessando o espaço ao seu redor, uma espécie de mergulho ou imersão dentro da realidade virtual, e tudo que recebe é uma maior noção de profundidade, se comparada com a projeção convencional. Read more…

Dois discos para ficar de bode

02.10.2009 gilvas 2 comentários

Esta semana promete ser de nuvens. E das cinzentas. Muitas. Persistentes, ainda que o vento tente levá-las. Semana perfeita, enfim, para desencavar alguns exemplares de post-rock da minha discoteca, e passar o resto do dia de bode.

Começamos com Mono, cujo Walking Cloud and Deep Red Sky, Flag Fluttered and the Sun Shined é um dos prediletos da casa. Encontrei este disco quando estava procurando por gravações do technopop farofa oitentista tardio Red Flag; acabei curtindo o Mono, e mandando o Red Flag passear, tal a ruindade do que encontrei. Walking Cloud and Deep Red Sky, Flag Fluttered and the Sun Shined, apesar do título quilométrico, não é assustador; é perfeito para dias reflexivos e cinzentos. Read more…

A Guitarra Nerd da Barbie

27.09.2009 gilvas 5 comentários
A data não consigo precisar, mas deve ter sido na época em que me formei, talvez um pouco antes, e realmente não importa quando, mas o que ocorreu: resolvi deixar de perder meu tempo com jogos eletrônicos. Colocando em forma de texto, pode parecer que foi difícil, mas não é o caso, as razões abundam.
Os jogos eletrônicos mudaram muito desde que minha versão adolescente raspava os fundos dos bolsos em busca das últimas moedas para inserir nos taitoramas de Little Boats City, costume que mantive enquanto ainda havia boas casas do gênero no Kobrasol e no Centro de Floripa. “Boas casas”, obviamente, é uma denominação irônica.
Houve um dia marcante, entretanto: resolvi encarar uma novidade dos taitoramas, e deixar um pouco de lado minhas amadas máquinas como Ikari Warriors e Scramble Formation. Coloquei a ficha, e aguardei a abertura. Eram seis botões, e o controle era operado de uma forma um súbita para meu gosto. Esqueci quem era o inimigo, e nem lembro quem era o meu personagem, embora suspeite que fosse o Ryu. Perdi a ficha tão rápido que nunca mais joguei Street Fighter.
Logo deixei de jogar fora de casa, e o último jogo que me divertiu foi Cadillacs & Dinossaurs, que, soube alguns meses atrás, causar nostalgia em diversas pessoas. Presumo que o sentimento de perda seja mais amplo do que eu imaginava.
Em casa, mergulhei com o 486 cansado no castelo de Wolfstein 3D, que me consumiu noites e noites de sono. Logo depois tentei rodar o primeiro Doom, mas a maquininha pediu água, resfolegou, e deixou-me a ver navios. Algum tempo passou, e a máquina foi substituída, mas aí eu já não queria Duke Nukem, que, imagino, deve ter sido a febre seguinte no mundinho de primeira pessoa.
Perdi ainda algumas horas de almoço com jogos de estratégia, do tipo que você vai expandindo suas fronteiras e equipando seu país, ou algo assim. Foi uma fase curta, que culminou em alguns insights, que acabaram por me afastar de vez do espancamento de teclados ABNT.
Um dia eu percebi que poderia me viciar em qualquer porcaria de jogo. Sério, eu cheguei a me esforçar para ir bem em partidas de Paciência e Free Cell! Se isto não for o fundo do poço, eu sou uma funcionária de meia-idade em alguma autarquia enroladora de velhinhos.
Eu precisava parar, e, para tanto, deveria transformar meu impulso em uma convicção embasada; as coisas funcionam assim por aqui. Já observaram como, em diversos aspectos, os joguinhos eletrônicos se parecem com masturbação? Bingo!
(não o jogo, leitor engraçadão.)
Distanciei-me desta bobagem, e logo depois me afastei da televisão, que larguei após a barra de uma overdose dividindo apartamento com um colega que tinha tevê por assinatura. A vida dá voltas, dizem, tanto que tem momentos em que a gente enjoa.
(pausa para rir da minha piada ruim.)
Hoje em dia, como um ex-viciado extremamente aderente ao conceito, eu desdenho dos que permaneceram na vidinha de punhetar na frente da televisão. Sim, eu mantenho aquele olhar distante, com uma sobrancelha levantada, e quase gargalho.
(não é tanto assim, mas o teatro é minha segunda natureza.)
Se há algo que me irrita profundamente é ver gente graduada, pós-graduada, pós-após-graduada, e congêneres acadêmicos, justificando o que já não conseguem entender, mudar ou evitar. Os adolescentes no mundinho lá fora são um bando de idiotas do tipo que não consegue ler orações com mais de dez palavras, e há sempre um “dotô” para dizer que “a geração Y quer respostas rápidas” em vez de botar ordem no barraco e colocar esta molecada jaguara para estudar.
Segue. O moleque vive no MSN? Deixa estar, pelo menos “está digitando bem melhor, olha só se eu consigo digitar rápido como meu filho!”. O infante xarope não larga o jogo eletrônico nem para ir ao banheiro? Está “desenvolvendo habilidades essenciais para sobreviver e triunfar na era da internet.” Fica enchendo o saco dentro de casa, dizendo que está entediado? “Ah, ele é hiperativo!” Minha avó diria algo na linha “Dá uma enxada para ele capinar que já sossega.” Velhinha porreta.
Para fechar os resmungos, resolvi fazer uma ponte com meu último texto, aquele que fala de punks e de como é legal se sentir incentivado a tocar algum instrumento, mesmo sem saber. No meu caso, acho que foi o Peter Buck o modelo. Ele deve ser um dos melhores guitarristas toscos que eu conheço; ele é o Rei do Lá Menor, e não faz feio com o Ré Menor. Sem piada.
Li, em algum portal de notícias que raramente acesso, uma chamada para uma reportagem onde o Guitar Hero era incensado por estar fazendo os jovens retomarem o gosto por rock clássico. Era tudo o que eu precisava para fazer a bile subir ao esôfago. Cáspite.
Para começar, eu posso até gostar de Pink Floyd ou Led Zeppelin, mas porque o universo musical de uma pessoa respeitável precisa necessariamente começar em Rolling Stones, passar por Zep, Queen e FLoyd, se atravessar em AC/DC e Ramones para desagüar em Nirvana, a última coisa aceitável no mundo dos trintões? E porque aquela alegria imensa em ver os filhos gostando da mesma coisa que os pais? Coisa jeca!
Nos bons tempos o moleque escutava um disco, ficava em estado transcendental com aquele refrão ou com aquela mudança de acorde, e ficava babando, pensando em como seria legal tocar daquele jeito. Nos anos oitenta, ele teria de esperar a música sair naquelas revistinhas de música em papel jornal, ou falar com algum conhecido que soubesse tirar música de ouvido. Depois veio a internet, e facilitou um pouco as coisas, mas ainda assim, você precisa ter um mínimo de noção de espancamento de viola para usar uma tablatura e uns acordes, e você teve de aprender isso em algum momento.
Aprendia. Passado. Hoje você provavelmente se limitará ao Guitar Hero. Podia ser pior? Sim, karaokê, uma praga nipônica que nunca foi devidamente levada a sério.
Deixa estar: esta chuva toda faz doerem todas as minhas juntas previamente estragadas ao longo desta vida de desregramento. A última parte é mentira, mas faz com que eu me sinta num universo onde reinam a causa e o efeito, e isto me faz dormir muito bem.

A data não consigo precisar, mas deve ter sido na época em que me formei, talvez um pouco antes, e realmente não importa quando, mas o que ocorreu: resolvi deixar de perder meu tempo com jogos eletrônicos. Colocando em forma de texto, pode parecer que foi difícil, mas não é o caso, as razões abundam.

Os jogos eletrônicos mudaram muito desde que minha versão adolescente raspava os fundos dos bolsos em busca das últimas moedas para inserir nos taitoramas de Little Boats City, costume que mantive enquanto ainda havia boas casas do gênero no Kobrasol e no Centro de Floripa. “Boas casas”, obviamente, é uma denominação irônica.

Houve um dia marcante, entretanto Read more…