Cinema Em Casa

O Cineclube Desterro está fechado há um bom tempo, e janeiro ainda parece bem distante, e eu preciso canalizar meu instinto criador de resenhas pedantes no campo do cinema, portanto vou falar do que tenho visto em casa. Aliás, porque eu não pensei nisso antes? Read more…
Arthur C. Clarke and Gentry Lee: The Garden Of Rama

Clarke, a despeito da notável pilha de títulos, não exercita uma prosa especialmente atraente. A descrição de seus personagens é direta e seca, subtraindo-lhes a graça que um criador melhor versado em letras poderia proporcionar. A imaginação do homem compensa essas faltas, ou eu não teria passado da leitura de seu primeiro volume. Uma elucubração é o que busco, e não uma crítica óbvia.
Elucubrando, então: existem autores que se demoram descrevendo suas criaturas, e há os que, sobrenaturalmente, conseguem extrair um pacote completo de personalidade a partir de uma única pincelada. Não é o caso de Clarke, conforme colocado no parágrafo anterior. Chovem descrições do tipo “João entrou na sala. Ele era apaixonado por Maria desde que se conheceram.”, descrições que poderiam ser deduzidas pelo leitor, e não lançadas em sua cara tão diretamente. Porque um escritor experiente Clarke se limitaria assim? Read more…
A Vergonha Alheia

Sofro de constrangimento alheio, ou seja, fico envergonhado quando alguma pessoa paga algum mico. Mesmo que eu não conheça a pessoa. Mesmo que ela própria não se sinta envergonhada. No caso dos modelos das propagandas de uma certa fábrica de sorvetes, eles sentirão vergonha no futuro, quando forem confrontados com as piadas cruéis que este tipo de situação suscita. Talvez sejam impedidos de concorrer a cargos políticos relevantes. Imagina o medo de um candidato a síndico, temendo ser surpreendido, por um concorrente ou detrator e a qualquer momento, com imagens retiradas do arquivo infame da publicidade mambembe. Read more…
A Improvável Arte de Empurrar

Cena: Toca o telefone, eu atendo, o sujeito se identifica, e diz que quer falar com o Senhor Gilvan Tessari, assim, em letras maiúsculas. Pode ser uma moça também. Assim como o gênero, o sotaque também muda, ao sabor dos incentivos fiscais para implantar callcenters em lugares improváveis, e levar aos povoados distantes a modernidade em forma de empregos civilizados. Ironia, claro.
A probabilidade maior, levantada pela observação do meu próprio campo amostral ao longo de dez anos, é de que seja cartão de crédito ou conta em algum banco safado que me vê como um vampiro enxergaria uma vítima, mas assinaturas de revistas têm uma boa fatia na incomodação. Vai longe o tempo em que me ligavam de instituições filantrópicas, e a razão disso constitui, para mim, um mistério. Que não pretendo investigar, muito obrigado, estou bem assim. Read more…
Ane Brun: Spending Time With Morgan

Ane Brun entrou para a minha calçada particular da fama por suas contribuições inequívocas e profundamente relevantes na descrição do estado do apreciador de cançonetas populares quando este se depara com uma iguaria ainda em processo de assimilação. Esta primeira frase do texto atual, se não assustou um possível leitor com sua construção macarrônica, mostra o quanto é difícil demonstrar o que sente o vivente quando se apaixona por uma música que nem sabe cantar direito. Humming One Of Your Songs fala disso, e com uma simplicidade que te esmaga. Duvida? Então segue a letra: Read more…
Pele Impressa

Martin Rossiter cantava, na primeira canção do segundo álbum do Gene, algo como a whole life led/with every minute spent/trying to feel things/no one has ever felt. Ou algo assim. Pode soar como a confissão de um adicto de drogas sintéticas ou o credo de um esportista radical dos mais chatos, mas eu leio estas linhas como um manifesto de busca dentro da vida. Tentar coisas diferentes, sentir coisas diferentes, se é que você me entende.
Minha busca é tímida, confesso. Não sou dado aos vôos soltos e inconseqüentes, e há alguma bibliografia mental sobre o assunto, algo que não vale a pena ser consultado neste momento. Assim, prossigo: não há grandes feitos ou passos imensos, e mesmo as desistências podem se enquadrar facilmente nas prateleiras da banalidade. Eu, por exemplo, desisti de ter uma tatuagem. Ou mesmo duas, talvez mais do que isso. Read more…
Peter Docter: Up

Tive poucas experiências em cinema com recurso 3D. Especificamente, foram duas. A primeira se deu com a terceira parte de Era do Gelo, onde a franquia mostra que está perdendo fôlego: as repetidas citações e as repetitivas correrias, sem falar na excessiva exposição de Scrat, aproveitam-se das possibilidades da profundidade expandida para evitar o fato de que não há muitos caminhos por onde levar Sid, Diego e Manny.
Observando a turba presente na exibição, reparei que existe uma disparidade considerável entre a expectativa do freqüentador de cinema de xópis e o que o cinema tridimensional efetivamente entrega. As reclamações são explicitadas em diversos formatos, mas o conteúdo é o mesmo: as pessoas entram no cinema esperando mirabolantes sensações, com objetos do filme atravessando o espaço ao seu redor, uma espécie de mergulho ou imersão dentro da realidade virtual, e tudo que recebe é uma maior noção de profundidade, se comparada com a projeção convencional. Read more…
Dois discos para ficar de bode
Esta semana promete ser de nuvens. E das cinzentas. Muitas. Persistentes, ainda que o vento tente levá-las. Semana perfeita, enfim, para desencavar alguns exemplares de post-rock da minha discoteca, e passar o resto do dia de bode.

Começamos com Mono, cujo Walking Cloud and Deep Red Sky, Flag Fluttered and the Sun Shined é um dos prediletos da casa. Encontrei este disco quando estava procurando por gravações do technopop farofa oitentista tardio Red Flag; acabei curtindo o Mono, e mandando o Red Flag passear, tal a ruindade do que encontrei. Walking Cloud and Deep Red Sky, Flag Fluttered and the Sun Shined, apesar do título quilométrico, não é assustador; é perfeito para dias reflexivos e cinzentos. Read more…
A Guitarra Nerd da Barbie

A data não consigo precisar, mas deve ter sido na época em que me formei, talvez um pouco antes, e realmente não importa quando, mas o que ocorreu: resolvi deixar de perder meu tempo com jogos eletrônicos. Colocando em forma de texto, pode parecer que foi difícil, mas não é o caso, as razões abundam.
Os jogos eletrônicos mudaram muito desde que minha versão adolescente raspava os fundos dos bolsos em busca das últimas moedas para inserir nos taitoramas de Little Boats City, costume que mantive enquanto ainda havia boas casas do gênero no Kobrasol e no Centro de Floripa. “Boas casas”, obviamente, é uma denominação irônica.
Houve um dia marcante, entretanto Read more…

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