sinestesia

Lars Von Trier: DogVille

nicole

Dogville dorme seu sono tranquilo quando chega o anjo loiro. Desde Twin Peaks, pelo menos, sabemos que não existe sono tranqüilo em cidades interioranas dos Estados Unidos. Lars Von Trier entra na batida face hipócrita da sociedade americana com um enfoque desnudado. O cenário é reduzido ao mínimo necessário, e todas as cenas são Brecht; estes detalhes tornam o assunto, velho, interessante.

Como sói acontecer aos anjos, a Grace de Nicole Kidman é humilhada de diversas maneiras, e o Von Trier já havia mostrado suas possibilidades cruéis em Dançando no Escuro, onde machuca Björk até aquele espaço onde não há mais grito, onde a dor apenas flutua, como se fosse alheia.

Das características dos moradores, a mais saliente e cruel é a das boas intenções. Das idéias insossas do personagem de Paul Bettany à falsa poesia do cego, todos os sentimentos mostram um rosto agradável. O filme encerra provas de teoremas umas dentro das outras. Tom Jr. pensa estar usando Grace para provar seu ponto de vista, quando é Grace quem usa a cidade para dar embasamento à sua teimosa resolução, sendo contraposta pelo Big Man oculto nas trevas do carro grande no começo da trama. E Von Trier, como diretor, usa tudo para comprovar seu próprio teorema, uma visão européia, em qual o ápice da ironia não poderia deixar de ser o Quatro de Julho. Uma ironia que, por pouco, não estraga a sutileza seca dos nove atos do filme.

Quando a condenação chega, como em Sodoma e Gomorra, é irônico, também, que ela venha pelas mãos dos opositores do poder constituído, possuidores do “Poder”, absoluto e velado pelas cortinas nos carros negros. Com um certo receio, ouvi palmas da platéia durante a condenação e a execução, sintoma claro da tendência maniqueísta e simplificadora da classe espectadora. Evitei olhar ao redor, mas os bolsões de silêncio persistiam entre as palmas; é aliviador observar que ainda existem pessoas que percebem que três horas de filme devem servir a algo mais do que apenas uma vendetta surpreendente.

Belíssima

Ah, sempre é bom lembrar, no momento futilidade, que a Nicole Kidman estava linda. A separação fez bem à moçoila.

About these ads

Single Post Navigation

2 thoughts on “Lars Von Trier: DogVille

  1. Pingback: Iain Banks: Uma Canção de Pedra « sinestesia

  2. Achei genial o filme: assisti ontem, no cic.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 1.014 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: