sinestesia

Lukas Moodysson: Lilja 4ever

Olá.

Confesso: fui assistir Lilja 4Ever com muita má vontade. A primeira razão para isso é o “4ever”, grafia pela qual mantenho uma considerável dose de asco, desde os tempos quando o Prince abusava de “2”, “U” e “4”. Para completar, a sinopse fala de uma garota que é convidada a emigrar da devastada União Soviética para a Suécia, o que torna quase impossível que o roteiro não discorra sobre a onda de prostituição e tráfico de escravas brancas, corriqueiro nos novos componentes do terceiro mundo. E, diabos, terceiro mundo com frio, ainda por cima, é de lascar!

Com esta visão inicial, não surpreendeu-me em nada a trilha explodindo logo ao princípio com uma canção do Rammstein, pesada e cheia de resquícios de Depeche Mode, e com Lilja correndo por uma avenida, rosto com hematomas e olhar desesperançado. O filme volta logo depois ao começo da história, com a despedida da mãe, que emigra para os Estados Unidos. Deste ponto em diante, o enredo é previsível como o resultado de uma corrida do Rubinho Barrichelo, e o diretor não poupa Lilja de nenhuma humilhação, que ela aceita com uma espécie de distanciamento adquirido pelo estado de choque constante. A seqüência de homens na Suécia é o ápice desta estética de embrutecimento, um toque de realismo que acaba por banalizar outros aspectos do sofrimento da menina.

Se havia uma forma deste filme dar certo, seria pela exploração da visão limítrofe que a criança Lilja possui da tragédia brutal que se abate sobre ela. A presença de Volodya, seu amigo, poderia ser uma metáfora a ser trabalhada, mas Lukas Moodysson não consegue imprimir o tom correto às cenas oníricas, onde Lilja se desprende da realidade cruel e malvada onde vive. Talvez fossem limitações orçamentárias, mas existem muitos pontos mal explorados; certas seqüências poderiam ganhar significados elevadíssimos se a câmera tivesse enquadramentos mais espertos.

Como se não bastasse, o lado podre da Suécia existe, segundo o diretor, e Sweden, clássica canção de Neil Hannon, nunca mais será tão mágica para mim.

Lilja 4ever prima pela denúncia de uma situação lamentável, mas esquece-se de que também deve apresentar arte; um par de asas e aparições místicas não resolvem esta debilidade no filme, que acaba sendo apenas depressivo.

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One thought on “Lukas Moodysson: Lilja 4ever

  1. Nanda on said:

    Esse ‘apenas depressivo’ foi inspirado pelo meu mal estar decorrente das cenas?
    Hm.. me usando de cobaia agora…

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