
David O. Russel parte de quase nada para estruturar o roteiro de I Heart Huckabee’s, comédia de 2004. A Maricota achou este DVD por módicos 12,99 nas Americanas, e é um investimento dos mais interessantes.
Começa pelos nomes estampados na capa, uma lista de atores de currículo interessante. A lista é tão boa que tu chegas a desconfiar. E não se pode dizer que algum deles seja o protagonista, embora a linha condutora seja o personagem de Jason Schwartsman. A constante troca de foco tem o saudável mérito de não permitir que a análise cristalize em uma opinião.
Os extras. Deus, o DVD tem extras muito bons. O menu é muito bonito e esperto, e dá acesso a diversas coisas, entre cenas extendidas, clipe da música-tema de Jon Brion, produtor da virada na carreira de Fiona Apple, outtakes e gafes de filmagem.
O miolo, a película propriamente dita, é intrigante. O filme tem todos os elementos de comédia, e até consegue umas gargalhadas. Entretanto, não é este o ponto. Russel tem a audácia de propor uma análise radical de certos aspectos da sociedade americana. Clichê? Pode parecer, e é exatamente como soa enquanto eu digito estas palavras, mas há certas coisas notáveis apenas no nível da execução.
Os diálogos podem assustar um espectador mais afoito, dado que são longos, e, não raro, neuróticos. Certas passagens incomodam pelo que suscitam, como na passagem da família que adota o refugiado congolês. Esta cena específica consegue pintar várias camadas da hipocrisia ianque em apenas um quadro, e já garante ao filme de Russel uma indicação aqui neste espaço.
Partindo do pressuposto da investigação existencial, a visão científica de um século Nova Era é achincalhada de forma elegante. O casal criador e sua seguidora rebelde, personificada por Isabelle Huppert, formam um dipolo de dinâmica prolífico em situações divertidas. E eu quero um quadro como aquele que o personagem do Dustin Hoffman tem em seu escritório.
As questões ambientais, e a forma como elas vêm sendo cooptadas pela iniciativa privada, são revistas e demarcadas, deixando claro o abismo brutal entre o romantismo infantilóide das ONGs e a astúcia doentia e poderosa dos conglomerados capitalistas. Jude Law não se esforça para ser o babaca da Huckabee’s, e seus contrapontos são os excelentes Jason Schwartzman e Mark Wahlberg, os pivôs ciclistas de toda uma série de confusões existenciais. Sim, a apologia das bicicletas é exposta em vários aspectos dentro da sociedade cultora do automóvel.
Tu podes até nem rir tanto, mas estes 104 minutos te farão compreender um pouco mais as camadas do universo que estamos construindo. Não que isso seja necessariamente agradável, mas vai te ajudar a ficar mais tranqüilo por saber que não é só tu que te preocupas com as nuances do ativismo verdinho, por exemplo.
Se nada disso te convenceu a ver este filme, devo informá-lo que uma das cenas mostram Jude Law com seios, amamentando Schwartzman. Nojentamente divertido.


foi uma feliz surpresa.
gostei da versão digerida de conceitos budistas/xamanicos/taoistas na exemplificação do todo no lençol.
mas, estou de acordo em nao me tranquilizar por completo com entusiastas do ativismo verdinho. afinal num mundo onde campanha ecológica é operação tapete verde não dá de esperar muita coisa né?!
um abraço.