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Casadinho

não achei uma foto de casadinho que prestasse!

Acabo de apreciar, vagarosamente, um casadinho. Este prosaico e tradicional docinho habita o edifício de minhas predileções gastronômicas há cerca de dois meses, talvez um pouco mais. Rastreio aqueles dias, de dois meses atrás, tentando encontrar alguma razão específica para a adoção deste acepipe nas fileiras dos sacrifícios à minha satisfação alimentar.

Minha razão predileta lança a questão em alturas metafísicas. O casadinho pode ser uma representação do princípio dos opostos, como se Yin e Yang se vissem na natureza dual das duas faces, branca e marrom. Não arrisco imaginar onde estaria o mínimo contraponto dentro de cada face, assim como não adivinharia o significado do açúcar cristal nem que ele fosse ditada por alguma professora do meu curso primário. Deixo tais considerações ao outros desocupados que divagam logo após o almoço.

O casadinho encerra arte em sua manufatura. Assim como no brigadeiro, sua massa tem de ser lisa e um tanto grudenta, sintoma do cozimento prolongado do leite condensado. Se houverem pequenos fragmentos internos a caminho da caramelização, diabos, é uma pequena jóia temporária. O exemplar de hoje estava farinhento, o que é quase imperdoável. Primeiro porque é ruim comer um docinho farinhento, e segundo porque deixa o consumidor da iguaria a imaginar que métodos escusos vêm sendo utilizados na confecção.

A ductibilidade, assim, é um parâmetro importantíssimo. O bom casadinho se esticará todo, sem romper-se no processo. Ser mole, neste caso, pode ser um desconforto para manuseá-lo, principalmente se os bocados forem pequenos. Entretanto, os melhores casadinhos são moles. Tomemos, por exemplo, o casadinho da Chuvisco: é pequeno e todo firme. Para piorar, excesso de açúcar cristal. À primeira vista, é interessante; claramente feito para pessoas que comem com os olhos, o público principal da Chuvisco, pelo que vejo nos expositores.

O último fator a considerar, e um dos mais importantes: a generosidade. Casadinhos devem ser grandes, devem ameaçar fugir de nossas mãos, comportar-se mal entre nossos dedos. Claro que o fato de serem moles apenas amplifica o efeito, tornando a experiência muito mais gratificante.

Querem saber onde se encontra o melhor casadinho de Florianópolis? Acreditem, ele não se encontra em nenhum vale encantado cheio de unicórnios ou confeitaria da moda. Para encontrar um exemplar glorioso, basta se locomover até uma confeitaria da Tiradentes, perto da banca de revistas, aquela que tem um monte de gibis de luxo, e lá estarão os danados, loucos para adentrar as afoitas bocas dos formigões como eu. E por um preço módico, acreditem, além do risco daquela caramelização parcial a qual me referi em algum dos parágrafos anteriores.

  1. doceira de mão cheia
    28.08.2007 às 15:58 | #1

    O conceito até foi usado de forma correta. Mas chama-se ductilidade, e não ductibilidade. Para o conceito ficar completo, deve-se lembrar que além de “esticar-se” todo sem romper, ele deve permanecer nesta forma (deformação plástica). Caso contrário o termo seria elasticidade, propriedade que podemos encontar no mundo dos doces, quando deixamos o brigadeiro passar do ponto, muito além do ponto de caramelos no meio.

  2. fabito
    29.08.2007 às 16:41 | #2

    parece que é possível encontrá-lo no itacorubi 2. :)

  3. Marcio
    02.09.2007 às 17:48 | #3

    Interessante a descrição desta relação do homem com um doce. Ela mostra que a literatura em poder de despertar sensações, mesmo que não estejamos vivendo a situação real/ material. Me interesso por reações sensitivas e coisas do tipo. Creio que temos um universo a ser explorado destas pequenas relações que estabelecemos na vida cotidiana.

  4. Kika
    04.09.2007 às 17:54 | #4

    Sabe do que eu gosto? Casadinho velho. Quando ele é enrolado em açúcar fino e não no cristal, depois de uns dois dias ele cria uma casquinha açucarada que vai quebrando quando tu mordes, pra então encontrar a massinha molinha lá dentro. Já tentei fazer em casa e não deu certo. =(
    Peixo.

  5. Mirian
    05.09.2007 às 15:49 | #5

    Hummm fazia tempo que não lia um texto gostoso como o teu!
    Abração pra vc!

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