
O Fagundes não vale uma naba. Não bastasse ele ser o maior comedor das novelas brasileiras, ele quase me faz deixar de conhecer direito uma de minhas musas atuais. Eu explico: a versão de A Marcha do Imperador que assisti teve o azar gigante de ser a dublada, e o pingüim masculino adulto era o nosso Fagundes. Imagina, um pingüim cujas frases têm sempre o mesmo tom que Fagundes usa, e que ecoa “vou te comer” subliminarmente. É o equivalente ao hey, how you’re doing? do Joey, de Friends. Tragédia, tragédia.
Felizmente, o mundo é um campo de aprendizado, mas tem seus dias de moleza. Assim, um dia eu baixei, sei lá por qual razão, algum material de Emilie Simon. Devido a uma mania de encadeamento coerente que desenvolvi na minha adolescência, comecei pelo primeiro disco dela. Começa a versão original, pois tem outra em inglês, de Desert. O obstáculo inicial é o registro extremamente agudo e infantil da voz: Simon canta como se fosse a Emiliana Torrini num compacto de 33 tocada no pickup de 45.
Leva um tempo para acostumar. A dica é focar inicialmente nas camadas generosas de ruídos e cordas. Por vezes opulenta, a produção mantém um padrão de bom gosto ao longo do disco, sem balançadas ou perdas de pulso. Logo tu acabas descobrindo que não existe como cantar Flowers com outra voz, e que o Iggy Pop não deve ter ficado realmente bravo com a versão de I Wanna Be Your Dog.
A canção que espero, acima de todas as outras, é, sem sombra de dúvida, Blue Light. Minhas descrições teriam de ser melhores para efetivamente aproximar, com palavras, o leitor do ouvinte que fui, mas Blue Light é simples e modesta. Suas camadas se juntam num sentido que já se espera, e a ponte quebra o clima com galhardia, permitindo um retorno para o refrão quase como se fosse uma outra canção. A versão acústica não deixa por menos; tem no CD bônus, assim como uma versão quase Nouvelle Vague para Flowers.
O disco de estréia firma um repertório altamente excursionável, mas deixa a dúvida sobre a faceta compositora da moça. Isto se repara completamente na trilha para Marcha do Imperador, onde as estruturas bem pensadas trazem de volta à memória, num exercício sinestético trivial, praticamente todos os momentos do filme, ainda que um ou outro momento seja pop demais, inadequado à esfera de som de um universo abstratamente congelado.
E o melhor da trilha é que ela se sustenta com ou sem o filme, e, na trilha, não o Fagundes. Vai por mim, é negócio.


kkkk Que trauma com o Fagundes é esse, fio?
é mais pegação no pé mesmo. vi o fagundes numa novela, das sete, acho. ele é um caso interessante: é, ou foi, um dos prediletos da mulherada madura, mas nunca fez esforço para ser galã. assume sua barriga com orgulho, essas coisas.
entretanto, pingüim com voz de fagundes não rola!