sinestesia

Kirk Jones: Nanny McPhee

Nanny McPhee não é o tipo de filme que eu pegaria em uma locadora, compraria em um sebo ou em uma promoção, ou mesmo pegaria emprestado por interesse próprio; precisaria de uma amiga para me indicar e emprestar. Eu nem precisaria ver a capa para desenvolver esta aversão imediata, bastaria o título: “nanny” é “babá”, e onde há uma babá, provavelmente há, pelo menos, uma criança.

Crianças não me interessam. Bom, talvez um pouco, no aspecto sociológico da coisa. Isto deve ser um problema, e eu resolverei isto com o meu terapeuta. Quando tiver um, claro, e quando este terapeuta se oferecer para tratar isso de graça.

Filmes com crianças vêm em alguns sabores, distintos e indigestos em sua maioria:

Sabor Edson: É aquele em que os infantes apresentam atuações dignas do Cigano Igor, sem o atenuante de contracenarem com a Helena Ranaldi. “Edson” aqui se refere a um serviço de telemensagem em o supracitado moço ia com a molecada para conhecer Papai Noel; para maiores detalhes, consultem a Maricota, que faz a melhor imitação que eu conheço desta propaganda. Um exemplo nacional bem fácil de achar é Meu Tio Matou um Cara;

Sabor Melodrama: É um item de fácil observação no cinemão mela-cueca ianque. A criança evoca aquele lado puro que mesmo os cafajestes mais pernósticos guardam em si, e conduz o facínora a uma possível redenção, este objetivo perseguido por nove entre dez enlatados gringos de tela grande;

Sabor Confusão: Clássicos de Sessão da Tarde geralmente possuem o fator Confusão Infantil associado. São aqueles moleques que brigam com vilões aparvalhados, e que, quase sempre, não conseguem esconder que não sentiram aquele chute no saco. Nestes filmes, é bem provável que a criança seja rebelde, e que isso seja seu diferencial em um mundo idiota. E isso não prova nada, é claro;

Sabor Bestinha Estúpida: A missão de resgate está quase no final, tudo bem encaminhado, apenas aquele suspense básico rolando, e você come tranqüilamente sua pipoca. O clima é de sonho, o mocinho já traçou a mocinha, mas então o moleque esquece sua coleção de bonequinhos decapitados dentro do âmago mais tenebroso da fortaleza do vilão, e alguém tem de voltar, comprometendo a segurança de todos e a efetividade da missão.

A Inglaterra cisma em fazer as coisas de outra forma, embora tenha alguns exemplares dos tipinhos pré-hormonais dispostos acima. O horror é imediato em Nanny McPhee: são sete pestes mitológicas abrigadas na casa de seu pai, interpretado por Colin Firth.

Firth comprovou um alto grau de bananice, conforme pode ser observado em Love Actually e Bridget Jones. Ele é incapaz de organizar uma gaveta de meias, então ele é o cara perfeito para ser o pai aparvalhado e viúvo de sete pragas bíblicas sobre o Egito.

A ambientação é novecentista. Os costumes são daquela época, assim como a relação entre patrões e empregados, familiares pobres e familiares ricos, burguesia e aristocracia. As roupas e as casas também o são, e desenhadas com primor, um dos pontos altos do filme. As pessoas se reproduzem como coelhos, dado que estavam na transição entre sociedade rural e urbana, e também porque não tinham televisão.

A relação com os moleques, entretanto, é totalmente século XXI. As crianças são altamente inteligentes (sic), hiperativas e rebeldes, ou seja, tudo que é usado para descrever os detestáveis exemplares da tal geração Índigo. Os primeiros quinze minutos do filme, você pode imaginar, me deixaram com uma pouco sutil vontade de eviscerar toda a prole do papai Firth, restando energia ainda para cobrir o diretor de porrada.

As coisas melhoram com a chegada de Nanny McPhee, convocada para botar ordem no barraco. Emma Thompson escreveu o roteiro deste filme, e provavelmente seria a única atriz com moral para segurar o rojão do papel. Ela me conquista em poucos minutos com suas atitudes arrojadas, mas o sentimentalismo não demora a vazar para dentro da película. Sobrevivi, dado que tenho um considerável currículo de obras interpretadas por Robin Williams.

Eu estaria mentindo se dissesse que não me diverti. A cozinheira tem diversos momentos de brilho, e não há como não rir com a tia-avó dos moleques, que trabalha bem o papel aristocrático. O casamento, assim como os preparativos, são hilários em sua essência quase Chaves. As lições de moral são bem encaixadas no contexto, e meu medidor de pieguice se manteve em níveis bem civilizados.

A parte ruim de engolir, e, sintomaticamente, a mais atual, é a da terceirização da criação dos filhos. Firth interpreta um pai que é uma anta, um títere mocorongo nas mãos de seus filhotes irascíveis, e isto é o que pode ser observado em qualquer espaço público que contenha pais e filhos. Nanny McPhee chega para consertar tudo, e deixar os filhos redondinhos para os pais, incompetentes, empurrarem com a barriga. Este exemplo escapa da simples esfera de criar os filhos, pois há quem dependa de babá para criar seus bichos de estimação, o substitutivo das crianças para muitas pessoas.

Entretanto, deixemos de azedume, pois Nanny McPhee termina apoteoticamente com um dos costumes mais interessantes dos povos bem alimentados caucasianos: a guerra de comida. Cara, eu não entendia isso quando via Os Trapalhões, e continuo não entendendo. Rir, então, nem se fala.

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2 thoughts on “Kirk Jones: Nanny McPhee

  1. Eu diria que crianças me interessam: quando são educadas e filhas de outras pessoas, pois aí tenho o direito a devolução no final do dia… :-)
    O engraçado é que várias pessoas já me disseram que eu deveria ter filhos e tal, que é muito bom. Detalhe: todos homens. Talvez se eu fosse homem até gostaria de ter. Não dá trabalho e não tem responsabilidades emocionais. Vou pensar nisso para uma próxima encarnação!!!

    • gilvas on said:

      ento: vrios homens tm me falado das glrias da paternidade, e sem maiores efeitos. o que me interessou foi justamente este novo aspecto da transformao do homem em algo mais prximo da fmea, este fenmeno do anos 00.

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