Marie-France Hirigoyen: Assédio Moral

mimimimimi

Minha motivação para ler este livro foi a utilidade que ele poderia ter em meu papel profissional. O termo, bastante utilizado no jargão da Você SA, chamou minha atenção, e resolvi que seria bom saber algo sobre o assunto antes de precisar. Sim, esta última frase foi um plágio de uma antiga campanha para a prática de ioga.

Hirigoyen é uma “psicanalista e vitimóloga”, sendo que este último termo, por mais técnico que possa ser, soa contemporâneo como o título do livro, e me desanima profundamente a começar a leitura.

A estrutura do texto é a de um trabalho científico, mas as divisões não convencem. Aparentemente, a proposta inicial era dividir o livro em uma seqüência coerente, onde os capítulos poderiam ambientar a violência cotidiana em diversos locais, mostrando a falsa inocuidade de espaços como a família e a empresa, e aspectos das relações entre os perversos e suas vítimas, e vice-versa.

Entretanto, a coisa não engrena. As partes são confusas, e não se comunicam entre si. Certas passagens se repetem, e esta falha poderia ser confundida com alguma intenção didática, o que é imrpovável, restando a hipótese mais provável: texto mal revisado, e que poderia ser mais burilado. Não que eu não escreva assim também, mas, diabos, isto aqui é um blog que nem minha mãe lê.

Hirigoyen repentinamente lembra-se do estofo científico que pretende expôr, e surgem algumas referências bibliográficas, que ficam boiando como gordura em uma sopa fria. O guru de Hirigoyen, Freud, recebe da fã um tratamento que oscila entre citação e negação; ele existe como um Sol na vida acadêmica de Hirigoyen, mas ela geralmente o usa como referência negativa de algo que tenha a dizer, o que me deixou um tanto mais confuso do que o normal.

Imparcialidade não é exatamente uma qualidade da autora. Isto fica claro quando um leitor busca referências à vida interior do perverso que possam ir além do seu unidimensional narcisismo, e não encontra nem traço. Eu não gosto de pensar nisso, mas fica um clima, muito claro, de que a autora torce para o time das vítimas a ponto de não conseguir equilibrar sequer o volume das descrições que apresenta.

Existe outra assimetria, e esta é plenamente justificável: raras vítimas são do sexo masculino, e isto é algo bastante previsível em um mundo feito por homens e para homens. Todavia, esta informação tem de vir previamente com o leitor, ou o livro novamente pende claramente para um lado.

Freud é a citação mais freqüente, mas Shakespeare também aparece com seu monstruoso perverso, Iago. Quem leva o troféu, porém, é Einsten. O austríaco, é sabido, conseguia colocar no fiel de sua balança uma capacidade gigantesca de abstração contra uma personalidade extremamente mesquinha no tratamento com a esposa. A citação de um contrato dele com a esposa é o suficiente para cobrir sua imagem, aquela com a língua de fora, de lama. Iuc.

De teimoso segui até o final, mas não recomendo: confesso que estava contando as páginas, e, assim que terminei, me atraquei com um filé do Philip Roth, para desintoxicar a sensação estranha de que eu estava adentrando um universo perigoso onde a paranóia politicamente correta imperava.

Excerpto da página 149:

(…)
Os perversos consideram-se não-responsáveis, porque não têm uma verdadeira subjetividade. Ausentes de si mesmos, eles o são igualmente para os outros. Se não estão nunca onde se os espera, se não são nunca apanhados, isso acontece simplesmente porque não estão presentes. No fundo, quando eles acusam os outros de serem responsáveis pelo acontece com eles, os perversos não os acusam, eles apenas constatam que, como eles não podem ser os responsáveis, o outro forçosamente o é. Jogar seu erro no outro, falar mal dele fazendo-o passar por mau, permite não só liberar seus instintos como também inocentar-se. Jamais responsáveis, jamais culpados: tudo o que acontece de mau é sempre culpa dos outros.
(…)

PS.: O último “mau” da citação me pareceu estar incorreto, e deveria ser “mal”. Todavia, meu processador gramatical está falhando nesta avançada hora, e deixo com vocês a encrenca para resolver.

5 Comentários

Arquivado em Literatura

5 respostas para Marie-France Hirigoyen: Assédio Moral

  1. Goulart

    Eu tenho sofrido assedio moral de forma mais humilhante que se possa imaginar mesmo depois de aposentado, tendo em vista que o agente humilhador vem, também, daquele que deveria dar exemplo e fiscalizar e punir os agentes que cometem abusos de poder humilhando a quem não merece tal procedimento. Estou falando do Tribunal de Justiça do Trabalho no RS, TRT4ª Região. Ocorre que trabalhei por quase dez anos num setor “especializado” (setor de conferência do tribunal) e a minha diretora, depois de um certo tempo (dois anos de trabalho mais ou menos) me pediu para que eu saísse de “livre e espontânea vontade” do “setor dela”. Como não fiz o pedido de remoção, ela (diretora) e os demais colegas do setor e demais diretores e servidores de outros setores os quais tive contato profissional e funcional começaram a me tratar como seu eu não fosse daquele setor e demonstrando que eu não era bem vindo no tribunal, e dificultaram o que puderam o meu trabalho, me humilharam, menosprezaram e escondiam o meu trabalho, ora me cumprimentando ora não, ou dizendo frases irônicas para me desestabilizar. O resultado disso foi que sofri doenças físicas e psíquicas, abalos funcionais, quer sejam: amigos ou colegas que se tornaram inimigos do dia para noite, prejuízos financeiros, pois direitos fundamentais adquiridos e averbados foram suprimidos na calada da noite em processos administrativos abertos os quais foram julgados decididos e arquivados sem me darem o direito de vista e/ou defesa. Agora, quando aposentado que tive de entrar na justiça buscando um direito adquirido é que fiquei sabendo de outros processos findos suprimindo direitos e que na justiça os diretores alegam que eu sabia da existência e o decido nestes. A contratação de advogado para sua defesa contra um tribunal de justiça, para fins de ver os seus direitos, é inócua, tendo em vista que aqueles que contatei (foram mais de vinte), escutavam o que eu tinha a dizer mas davam desculpas para não defender-me no caso, outros eu pagava o valor pedido e em seguida se manifestavam de maneira a não dizer o que realmente estaria acontecendo, alegando falta de provas. Alguns que paguei antecipado não me defenderam nem me devolveram meu dinheiro. Muitos pegaram meus documentos probatórios para ler e me dar uma resposta, depois desapareciam porque a sua secretária dizia que não estava, tinha saído ou estava em audiência e que era para eu ligar mais tarde, e quando eu ligava davam todo tido de desculpas novamente até eu desistir de contatar.
    Por isso, acho que o assédio moral ocorre em vários níveis de hierarquia funcional. E é muito difícil você dar a volta por cima ou reverter tal situação, tendo em vista que o que está acontecendo contra você ninguém te fala, alerta ou te dá crédito e as pessoas de bem que compõem o judiciário (que felizmente são a maioria) ainda não se aperceberam do problema. Enquanto isso, os assediadores deitam e rolam fazendo dos seus “cargos e salários” um tapete vermelho de pompa e sonhos irreais. Um dia este abuso irá acabar. O que se poderia fazer, de imediato, seria terminar com o prazo prescricional ou decadencial do assédio moral, para garantia de recomposição da dignidade e dos valores subtraídos ilegalmente do assediado.

  2. jaqueline

    Não há erro na grafia da última palavra ”mau” na citação, ela foi corretamente empregada… assim sendo, concluo que, como outras, suas críricas não procedem…

    • gilvas

      “parece que”, ou seja, eu tinha lá minhas dúvidas. observando agora, de dia e com outro ponto de vista, observo que está correto. é uma pena, entretanto, sinto-me injustiçado por conectarem minhas dúvidas sobre a língua portuguesa à minha capacidade de avaliar um texto.

  3. Aqui em Portugal, o assédio moral também está ligado à pressão para despedir alguém, utilizando expedientes não muito claros…

  4. “Capacidade gigantesca de abstração”… Acho que Freud não sobreviveria nos dias atuais. Sempre tive a impressão de que ele fez seu nome por ter aparecido em uma época de ainda extrema predominância masculina…

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