sinestesia

A-ha: Foot of The Mountain

homage to ok computer?

Ao ouvir o derradeiro registro fonográfico do trio norueguês A-ha, eu só consigo pensar que eles foram, e continuam sendo, bonzinhos demais. Uma imagem completa da existência destes três rapazes caucasianos muito brancos transparece em suas canções, seja no vocal sempre emocionado de Morten Harket, seja nas linhas melódicas dos teclados de Magne Furuholmen ou nos violões e guitarras contidos de Paul Waaktaar-Savoy.

Dá para imaginar os três bons meninos em seus tempos de glória: o A-ha teve seu ápice nos anos oitenta, com toda a purpurina sonora e todos os vídeos nababescos em que isto implica. Garotas se esgoelavam durante toda a turnê, escoando para os camarins em ondas hormonais que fariam qualquer homem normal fraquejar.

Mas não os nossos ursinhos carinhosos do extremo Norte: eles provavelmente perguntavam coisas do tipo “Ei, mocinha, você não vai ficar doente tirando a roupa aqui neste ambiente cheio de correntes de ar?” ao serem atacados por adolescentes ávidas por perderem a honra de suas famílias abonadas.

O rapaz sensível que hoje canta Mother Nature Goes To Heaven, com sua voz um pouco menor e ainda um pouco mais sábia do que nos anos oitenta, continua sereno e preocupado com a forma como as coisas andam fora de seu éden nórdico de renas, neve e renda per capita elevadíssima.

Todo aquele tecnopop dos anos oitenta não poderia continuar por muito tempo, e a pá de cal, já previsível quando o mundo da música pop foi dominado pela farofa dos Bon Jovis da vida, foi dada por uns rapazes ranhentos com camisas de lenhador e que cultuavam, cada qual a seu modo, alguma faceta do mundo como ele era nos anos setenta.

Nossos polianescos rapagões se puseram a pensar em reinvenção, e nada melhor do que usar a mesma matéria-prima que usa essa garotada nova, este pessoal supimpa e super-legal, embora incompreendido. O resultado da análise foi pífio, e quem lembra do Hollywood Rock lembra de Harket cabeludo, tentando se impor como um homem sexy de peito exposto sob algum colete de material indefinido.

Imagine um Doors anódino, movido a biscoito integral e chá verde, e tu chegas perto do conceito que estou tentando passar. Pavor, pavor: os rapazes do frio nasceram para os sintetizadores, e longe deles se ia sua expressividade, ficando apenas o plástico, tão bem quisto na era do cabelo gelificado e das camisas fluorescentes.

Em 2009 nada mais disso importa: depois de diversos discos-solo, eles voltam a se reunir. Devem morar na mesma rua, seus filhos fazem guerra de bolas de neve desde sempre, desde os pais não vejam: “há tanto resíduo tóxico na neve hoje em dia”, reflete o macrobiótico Waaktar, sob o olhar apreensivo de seus comparsas fofos.

Eles se reúnem na garagem, tiram o pó dos instrumentos. Hoje em dia a música sintética é aceitável de novo, eles sabem muito bem, apesar de só comprarem CDs em lojas, e a expressão P2P ser um tabu em suas protestantes casas.

As canções estão redondas, e eles riem juntos quando sentem que ainda existe um restinho daquela magia. O tempo lhes fez bem: estão magros e saudáveis, não tiveram overdose de nada além de uns pirogues que Furuholmen traçou num restaurante de beira de estrada durante a turnê na Polônia, e que o fizeram refletir sobre a importância de maiores investimentos no sistema de privadas nos países menos favorecidos da União Européia.

Os timbres são analógicos em todas as canções, e eles se contêm um pouco mais do que o normal: morrem de medo de parecerem cafonas, e mantêm um mal disfarçado desejo de serem admirados nestes confusos dias da atualidade.

Morten Harket olha apaixonadamente para a distância além e acima de seu microfone, e suspira algo sobre a vida ser boa. Ele está certo, e, discretamente, sabe disso.

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5 thoughts on “A-ha: Foot of The Mountain

  1. Lili on said:

    O A-ha está acima de qualquer crítica: a poesia, a beleza e a leveza são virtudes atemporais, por isso Eternas! Viva o belo!

  2. junio leal on said:

    parabéns, belo texto. escreve um sobre o alphaville.

  3. ahahahahahaah – bicho, má cumé que tu ainda tem tempo pra ir atrás disso?

    • gilvas on said:

      e quem disse que eu fui atrás? inventei tudo! afinal, quem, no afã dos tempos mais-do-que-modernos, se importa em verificar fontes?

      em tempo: hoje eu estava comprando rúcula no rosa do itacorubi, e os alto-falantes murmuravam being boring, do pet shop boys.

  4. Muito show o texto. A-ha é uma das melhores dos 80.

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