As Matrioskas de Roth

Depois de uma passeada pelo Philip Roth desbocado que transborda testosterona e amargor na América judia de Complexo de Portnoy e Lição de Anatomia, é bom voltar ao Roth maduro e refinado da trilogia dos monolitos.

É muito arriscado apostar que algum dos volumes seja o melhor. Cada um deles tem suas virtudes inegáveis em setores distintos, e, coroando tudo, a escrita memorável de um homem que domina seu metiê de modo soberbo.

Ainda não cheguei à metade deste Casei com um Comunista, mas não resisto a deitar meia dúzia de palavras ao teclado sobre ele. O método de criação é o mesmo dos outros volumes da trilogia, Pastoral Americana e A Marca Humana: Nathan Zuckerman deixa de ser um protagonista, e passa a acompanhar pessoas mais dignas do que ele, pessoas excepcionais que, em algum momento, foram derrubadas de seus pináculos.

O monolito agora é Ira Ringold, provavelmente o mais frágil dos poderosos heróis de Roth. O escritor parece saber disso, tanto que não manipula seu títere diretamente, escolhendo a abordagem por um filtro duplo. Roth enxerga pelos olhos de Zuckerman que enxerga Ira pelos olhos do irmão deste último, Murray.

O ferramental de Roth é coerente com as citações de uma Matrioska no segundo capítulo, Matrioska de qual Ira é a última camada, observado por sua devotada sobrinha.

Neste primeiro terço de livro, o que me marcou, além, obviamente, da precisa prosa de Roth, foi sua visão muito acurada dos episódios formatórios de um casamento condenado ao fracasso. Roth tem a habilidade de descrever um cenário onde um casamento absurdo, celebrado entre seres absolutamente díspares, é não somente verossímil, mas o único caminho viável em seu contexto.

Além do roteiro acertado, Roth, neste volume, aparece com algumas tiradas realmente profundas, resultantes de uma visão de vida cujas arestas foram aparadas por décadas de intempéries. Um aperitivo, da página 108:

(…)
O importante não é ficar com raiva, mas ficar com raiva das coisas certas. Eu disse a ela, olhe a questão de uma perspectiva darwinista. A raiva serve para tornar a gente eficaz. Essa é a sua função na sobrevivência. É por isso que a raiva nos foi dada. Se ela nos torna ineficazes, livre-se da raiva, feito uma batata quente.
(…)

1 Comentário

Arquivado em Literatura

Uma resposta para As Matrioskas de Roth

  1. Vinicius

    Gostei do trecho.

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