sinestesia

TV Lies

Cresci numa cidade em que os canais eram apenas a Globo e a Manchete. Cresci sem ver Chaves e todas aquelas atrações maravilhosas do canal do Tio Silvio. Vi muito seriado japonês, e sem intervalos, pois a repetidora não era local. Quando moleque, meu pai restringia meus horários de televisão, e eu precisava de critérios bem aprumados para escolher o que eu iria ver. Lá fora, um gramado enorme, e os horizontes seguros que apenas uma cidade pequena pode oferecer.

Eu sinto saudades de começar a ver filme pela metade. De preferência se alguém já estivesse vendo antes. Saudade de perguntar para a pessoa, que está prestando atenção e não quer ser incomodada, quem era aquele cara de bigode e porque ele estava usando uma roupa de cachorro. Sinto saudade até das almofadas arremessadas em resposta às perguntas inconvenientes.

Talvez eu sentisse saudades dos filmes que a Globo mutilava para caberem no baú bem delimitado da Sessão da Tarde, mas eram outros tempos. Lembro com carinho das dezenas de vezes em que minha mãe, geralmente, me exortava a abandonar o sofá, em qual eu havia capotado, com a frase “Vai dormir na cama!”.

Quando em Floripa, já era rabugento, muito rabugento. Não lembro de ter visto muita televisão antes dos vinte, tirando a TV Colosso em seu glorioso primeiro ano, e alguns seriados. E nem depois dos vinte. Houve algum dia em que eu larguei de vez da telinha barulhenta, mas eu nem lembro quando. Não foi escolha, foi dissociação mesmo. Não lembro de ter chorado na separação, então deve ter dado tudo certo.

Alguns colegas viam a programação da TV Cultura. Lembro de haver a TV Educativa em Floripa também. Meus colegas de escola técnica, os mais informados, os mais cultos, arrotavam superioridade, falavam de entrevistas marcantes, de programas instigadores, de apresentadores que quebravam paradigmas e desafiavam o senso comum da televisão comum. Isto me intrigava.

Nunca entendi tamanha insistência no formato televisivo. Sempre me pareceu que não havia muita opção ali. Curiosamente, Paulo Autran declarou em uma edição do Roda Viva, que “A arte do ator no teatro é a arte do ator. Cinema é a arte do diretor, e televisão é a arte do anunciante.”. Bingo. A televisão é a arte do anunciante. Excelente. Porque tentar pensar dentro de um formato tão restritivo, se há outros caminhos muito mais interessantes?

O televisor é um eletrodoméstico. Em muitas residências, ele serve apenas “para fazer barulho”, para quebrar o silêncio enervante que a casa apresenta para quem veio de um dia cheio de barulho, de engarrafamento, de ar sujo, de cansaço improdutivo. Em certos momentos, o televisor é o centro da sala. Também é um bom disfarce para a falta de assunto, para a esterilidade do nosso diálogo contemporâneo.

Discordo quando dizem que a televisão é culpada de nossos males. Na verdade, ela é apenas um ícone desta sociedade em que nos enfiamos. Pobre e inocente televisão, se foi prolífica um dia, deformamos a ferramenta ao ponto de nada mais podermos fazer com ela.

Tenho um televisor em casa. Ou melhor, um monitor na sala. Ligado a um aparelho de DVD. Sou um romântico, e gosto de ver filmes no sofá. Nada de ver filme na frente do computador. Nem mesmo um curta ou um seriado. O caixão de abelhas ainda é um ícone quando se trata de exibir filmes em casa. Sim, eu tenho um televisor de tubo.

Aliás, sou apenas eu quem enxerga uma forma de futurismo retrô na palavra “Televisor”? Ah, nem mesmo quando se quebra a palavra em duas partes, “Tele-visor”?

O fato é que o formato tradicional da televisão, em que a programação é jogada para cima do telespectador passivo, não me interessa. Da mesma forma que não me interessa o rádio. Ambos os formatos são restritivos. A programação se repete, em formato, dia após dia, e não há espaço para reinvenção. Ah, tem o jornalismo, há boas reportagens, podem dizer, mas ainda prefiro as reportagens em texto.

A escrita estrutura um assunto de forma mais sucinta e fechada do que um vídeo editado. Em analogia, poderíamos dizer que uma reportagem escrita é uma foto P&B, e uma reportagem em vídeo é uma fotografia colorida. A diminuição dos tons possíveis faz o jornalista se ater ao ponto, focar, e não se deixar fascinar pelas facilidades, não raro apelativas, dos depoimentos pessoais. Esta abordagem reduz também a interferência da linguagem corporal do jornalista, que é algo que apenas encontra utilidade em coletâneas de excerptos televisivos constrangedores no Youtube, sob a rubrica de “Fail”.

Marshall McLuhan, na década de 60, destilou diversas teorias sobre as mídias como extensões do ser humano. Com a televisão e outros meios de comunicação, ele dizia, o ser humano poderia criar a aldeia global. As comunicações, quase instantâneas, de hoje, mais a interatividade proporcionada pelas redes sociais, pode ter realizado o sonho do velho hippie.

Entretanto, parece-me que faltou relegar a televisão a seu devido lugar, como uma das etapas a serem cumpridas até chegarmos à tal aldeia global. O formato, aceitemos, está falido e fadado à manipulação de forças econômicas, rendido à publicidade e aos interesses governamentais. Porque nos prendermos a uma forma de irradiação unidirecional de idéias quando podemos interagir em meios que permitem igualidade de voz?

Alguém pode dizer que a televisão ainda é o meio de maior impacto sobre a população brasileira. Está correto. O problema é que massiva fatia da população brasileira não faz ne idéia de que existam canais educativos, e muito menos está interessada em assistir a eles. As discussões relevantes sempre estiveram restritas a grupos muito pequenos, e não vejo como o formato televisivo, sem intereação, possa expandir estes números.

Dar voz às pessoas dentro de grupos de expressão é uma forma muito mais efetiva de expandir consciências do que emitir discursos através de uma caixa luminosa e barulhenta. Quem já deu uma entrevista, por exemplo, sabe muito bem o efeito da edição sobre a mensagem que se quis passar.

A televisão é um formato moribundo, e dar sobrevida a ela, mantendo-a viva por aparelhos, é perda de tempo. A classe dita pensante deveria estar gastando suas energias gerando conteúdo e discutindo dentro das ferramentas contemporâneas, e não insistindo em um formato jurássico totalmente contaminado pelas corporações e pelo entretenimento imediatista e barato.

***

Mais alguns textos sobre o assunto:

Jornalecos

Televisão

Quando eu for rei

Falsas verdades sobre a televisão, citações da Bravo

About these ads

Single Post Navigation

2 thoughts on “TV Lies

  1. Jones on said:

    hehe, bem Interessante e 99,7% parecido com a minha opinião sobre as TV’s. Inclusive, lá em casa, a minha é tão somente monitor também! Mas cadê a parada sobre o Willian Bonner mexer alguma coisa quando mente?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 1.003 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: