Encontrar um argumento interessante para uma comédia não é tarefa trivial. Este fato, entretanto, não deveria servir de desculpa para os incompetentes que dão o andamento às produções deste gênero em Róliude. Entre as raras exceções dos últimos anos, destaco I Heart Huckabees. Nesta comédia de motivações surreais, o núcleo de eventos é uma agência que estuda coincidências.
Coincidências, berrarão os ativistas, são problemas apenas para a classe média branca, dada a divagar em busca de um mísero significado para sua existência além das compras por catálogo ou, mais atualmente, pela internet. Andei comprando alguns cacarecos via web, então, repentinamente, o lance das coincidências começou a fazer sentido. Mais do que eu confessaria.
Ora, quem eu quero enganar aqui? Confessarei. Há uma marca oriental de veículos automotores, a Subaru. Alguns exemplares desta montadora foram importados por algum picareta anônimo no meio dos anos noventa, e, mistérios do destino, diversos sobreviveram. “Diversos” é um exagero; deve ser possível contar o número destes sobreviventes nos dedos da mão de uma pessoal que os tenha todos. Os dedos, não os Subaru; você me entendeu, engraçadinho que adora fazer anagrama com as sílabas Su, Ba e Ru.
O dono de um Subaru traz em seu perfil uma saliente nódoa de excentricidade. Ele poderia estar usando camisas havaianas, ele poderia estar colecionando tampinhas de garrafa de refrigerante, mas não: Ele dirige um Subaru. Dia desses tinha um Subaru estacionado embaixo de um sol senegalesco, meio-dia bombando na Ilha Térmica de Santa Catarina, o motor ligado, o ar condicionado a mil, e o cidadão, excêntrico com certeza, com o banco abaixado, exercitando a tradição mexicana da soneca pós-almoço.
Um Subaru é um achado, algo a ser comentado com os colegas de trabalho, um fato arqueológico, sociológico, pelo menos. Um segundo, Subaru, na mesma semana, em local distinto? Comece a desconfiar. Um terceiro pode surgir, e aí é correr para as colinas, sem olhar para trás. Já imaginou se estas coisas começam a colocar seus ovos?
Minha coincidência da semana passada foi o tal do Subaru. Três vezes. Sem repetir. Fiquei alterado, esqueci de verificar as placas; seria bom verificar que se tratavam de carros de turistas. Ainda assim, desejei que uma agência para investigação de coincidências existisse. Ou duas. Uma tocada pelo Dustin Hoffman, e outra pela Isabelle Huppert. Ah, ia ser um mundo bem mais divertido.


