Tabaco nunca mais

Pode soar curioso, mas, neste sábado que passou, descobri que vou sentir uma saudade imensa do tabaco quando este se for. Menos saudade do que do Wando, o primeiro cheirador de calcinhas a sair das gavetas, claro. Muito mais saudade do que de Whitney Houston, musa dos craqueiros que também se amarrava em gritar ao microfone, óbvio.

Estava eu com a digníssima a escolher o tom, de madeira de mentirinha, da mesa que irá tornar nossa sala de estar mais agradável. Era sábado. O ritual consiste em imaginar as cores de todo o resto do mobiliário no recinto, e tentar manter a salada digerível aos olhos.

Seguindo estas diretivas, lembrei dos nichos dos DVDs, de madeira escura, e pensei que a mesa poderia, como aprendi em alguma revista pedante, dialogar com eles. “Tabaco”, falei para a vendedora, “até porque vou fazer novos nichos iguais aos que já tenho”.

Ela franze de leve a testa, diz que o tabaco não tarda em sair de linha. O marfim já foi, o tabaco logo, e devo me apressar. Estupefato, questiono quais serão os substitutos. Ela me mostra um catálogo menos surrado do que o que apresenta os tons possíveis da mesa. “Tons de madeira rústica, com veios aparentes, nós, até mesmo algumas saliências, a moda da madeira de demolição…”.

Anos de sabedoria paterna e materna vão pelo ralo. Lutamos para conseguir materiais práticos e bonitos, discretos e elegantes. Lembrei até de um guarda-roupa que comprei em uma ponta de estoque por quase um terço do preço, simplesmente porque ele apresentava nós na madeira, de verdade. Agora, reversão completa, as tendências apontam para o móvel rústico. Rodas de carroça na sala de estar, provavelmente, serão o ápice desta moda.

Tudo será jogado fora em alguns anos, em nome da obsolescência programada que mantém nossa economia paraadoxal rodando. Os interiores serão um pouco mais feios, o planeta terá algumas montanhas a mais de lixo. E a nave segue.

6 Comentários

Arquivado em Filosofia de Boteco

6 respostas para Tabaco nunca mais

  1. tabaco e decoração num mesmo texto…o hétero, esse desconhecido.

    • gilvas

      sempre meu amigo renato a aproveitar as deixas capciosas dos textos. ;)

      • marcelo de almeida

        essa vendedora sabe tudo!!

      • marcelo de almeida

        Gilvan ? Tenho uma coisa pra te perguntar? E essa galaera paulista , que anda por ai? Tipo “romulo froes ” e cia o que voce me diz?

      • marcelo de almeida

        Ou melhor dizendo , teria como voce fazer um apanhado geral dessa moçada ae ? Tipo o que voce fez com o “cicero”

      • gilvas

        eu ouvi o fabio goes, mas a parada não desceu muito bem. gosto de céu, parece que tem disco novo, mas nunca escrevi uma resenha. mas era uma. abraço!

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