Ficção No.56

Aquela sensação sempre o tomava de assalto. Aproximava o polegar do botão sobre o qual repousava um pequeno triângulo impresso, e o pressionava durante um instante. Que virava um segundo. Um segundo e meio. Quase dois. Provavelmente nunca tinha chegado a dois segundos, ele nunca saberia. Estaria assombrado pela sensação de perda que lhe causava o esmaecimento da tênue luz azul do mostrador. Parecia-lhe que antes apagavam as letras, os símbolos, os algarismos, para apenas então aquela luz, aquele sopro de vida num ser de plástico, metal, silício e terras raras, aquele arremedo de alma eletrônica desapareceria nas entranhas daquela carcaça agora silenciosa. Nas primeiras vezes não conseguia sufocar o impulso de ligar novamente o aparelho e descobrir que ele ainda estava ali, que iria voltar com certeza. Agora ele se controla. Sente-se quase disciplinado. Sente, todavia e ainda, que sufoca aquela vida luminosa, com um travesseiro imaginário, toda a vez em que precisa desligar seu minúsculo aparelho de som. Não é uma sensação boa. Olha para os lados, expira aliviado a perceber que está sozinho. Olha consternado para o visor vazio e lhe deseja bons sonhos. Deste lado.

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