sinestesia

O campeão dos oprimidos

A agremiação futebolística Corinthians venceu algum campeonato alguns dias atrás. Eu soube disso logo após investigar o comportamento, sensivelmente mais troglodita do que o normal, de alguns vizinhos do meu bloco. Seus urros, soube após observar comentários na minha linha de tempo do aplicativo do passarinho azul, derivavam do prazer intenso que lhe causa a vitória de seus onze mercenários.

Até onde me lembro, não sigo, por querer, pessoas que comentam sobre futebol ou sobre a nova febre do momento, o MMA. Mas, descobri também, a estupidez é contagiosa. A televisão vende idiotices a preço de banana, e custa muito pouco, ou parece que é nada, seguir a manada. Mas não é disso que eu falo hoje.

O futebol é incensado por diversos auto-denominados “pensadores”, e gostar de futebol agrega um tempero de rua ao intelectual. Com isso, ele se torna efetivamente um intelectual brasileiro, alguém que transita da academia até o povão, alguém imerso nesta brasilidade tão fervilhante que chega a emburrecer. Mas, como bom classe-média, o intelectual toma um banho básico, e vai ver alguma coisa no GNT.

Esta relação do pedante de academia (das cátedras, e não a da puxação de ferro) com o futebol acaba de chegar a uma convergência interessante. O Corinthians, apelidado por alguns de “curíntia”, sempre sofreu com a pecha de time adorado pelos pobres, ou, diriam os maldosos, pelos malacos, pela rafuagem.

Assim como, repentinamente, a classe média descobriu, no início dos anos noventa, que era cool ser brasileiro, agora é ainda mais cool ser corintiano. Obviamente, a mesma classe-média sabe que ser brasileiro em Miami é bem melhor do que no Brasil, então ser corintiano em Jurerê é mais gostoso do que o sê-lo em, digamos, Palhoça. Os parentes da Luíza que o digam.

Voltando ao campo da intelectualidade, o Corinthians, empresa desportiva mercenária tal qual outros times profissionais de futebol, torna-se um símbolo da classe oprimida, dos pobres deste Brasil todo. O Corinthians ultrapassa o Flamengo, abalado por goleiros homicidas, atacantes amigos de traficantes e outras variantes de pagodeiros caçadores de loiras falsas, como representante de um povo que quer seu lugar ao Sol, mas hoje está com preguiça de lutar por isso.

Que o senso comum, alimentado por Galvões e Biais, se preste a elogiar vitórias vazias e sociologia de má estirpe, isso é previsível. O que me preocupa é quando aqueles poucos, que lutam em outras frentes, se entregam a divagações e a discussões sobre o entretenimento de massas, cinza e imenso.

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3 comentários sobre “O campeão dos oprimidos

  1. gilvas em disse:

    é uma discussão potencialmente extensa, principalmente porque os oito e o oitenta estão tão próximos. o questionamento principal é a devoção a um time que é uma empresa capitalista, e o secundário é a adoção pela intelectualidade de uma representação cooptada como se fosse válida.

    • olha, acho que o papo se estenderia mais redondo com uma gelada entre nós. todavia (rá!), penso que, embora concorde em parte com o teu raciocínio, não se deve desconsiderar questões culturais de identificação que as pessoas (povo, e intelectual também é povo – somos, né?!) alimentam em relação a essas “empresas capitalistas”. inclusive por essas empresas não terem sido sempre empresas. já não foram…

      mas…

  2. me lembrou o oswald de andrade chamando o josé lins do rego de imbecil de chuteiras…

    agora, embora (como sempre) goste do texto tenho que dizer: o oito e o oitenta me parecem próximos demais.

    não?!

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