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William Faulkner: A Mansão

14.12.2009 gilvas 2 comentários

Ao fechar a trilogia da família Snopes com A Mansão, William Faulkner fecha um longo ciclo em sua própria obra. O período de tempo abrangido por este volume é de quase quatro décadas, e Faulkner exercita diversas facetas aqui.

Alguns capítulos são escritos por alguns dos personagens, recurso já utilizado em Enquanto Agonizo, e outros vêm diretamente pela voz do narrador. A gênese deste romance foi demorada, e o um prefácio do próprio Faulkner faz um alerta a possíveis incongruências.

A âncora que prende o texto à produção passada do escritor é o condado de Yoknapatawpha, cujo nome inpronunciável denuncia sua imaterialidade, mas reforça seu significado. A visão crítica sobre a situação dos negros no Mississipi, forte em O Intruso, tem pouco espaço aqui, o que denota um Faulkner de fornada mais recente. Existe a nostalgia de uma terra que havia sido desolada há pouco, com em O Urso, mas agora é apenas um eco de uma lástima: o rural é um arremedo da cultura agrária, e se mescla aos espaços pseudo-urbanos como Jefferson. Read more…

Kirk Jones: Nanny McPhee

Nanny McPhee não é o tipo de filme que eu pegaria em uma locadora, compraria em um sebo ou em uma promoção, ou mesmo pegaria emprestado por interesse próprio; precisaria de uma amiga para me indicar e emprestar. Eu nem precisaria ver a capa para desenvolver esta aversão imediata, bastaria o título: “nanny” é “babá”, e onde há uma babá, provavelmente há, pelo menos, uma criança.

Crianças não me interessam. Bom, talvez um pouco, no aspecto sociológico da coisa. Isto deve ser um problema, e eu resolverei isto com o meu terapeuta. Quando tiver um, claro, e quando este terapeuta se oferecer para tratar isso de graça.

Filmes com crianças vêm em alguns sabores, distintos e indigestos em sua maioria:

Sabor Edson: É aquele em que os infantes apresentam atuações dignas do Cigano Igor, sem o atenuante de contracenarem com a Helena Ranaldi. “Edson” aqui se refere a um serviço de telemensagem em o supracitado moço ia com a molecada para conhecer Papai Noel; para maiores detalhes, consultem a Maricota, que faz a melhor imitação que eu conheço desta propaganda. Um exemplo nacional bem fácil de achar é Meu Tio Matou um Cara; Read more…

Osama e Cidade de Deus

Devido a circunstâncias bem azucrinantes de ordem médica, estou recolhido em casa. Uma vez ilhado, ataquei a pilha de livros na prateleira, e, nos intervalos, tenho visto alguns filmes que ficam em outra estante.

Na manhã de quarta-feira, fui de Osama, um exemplar de cinema afegão. Um tanto ingênuo em sua realização, como seria de se esperar em um país sem nenhuma tradição no assunto, o filme tem os méritos óbvios ao denunciar uma situação que os ocidentais não gostam de ver. O que interessa, principalmente ao povo europeu, é o petróleo que se esconde na Ásia, e que poderia passar em oleodutos através das terras afegãs.

O filme é triste, na linha e na intensidade que podemos conferir em Tartarugas Podem Voar, o que poderia definir alguns parâmetros do cinema de países orientais e predominantemente muçulmanos. Desde os primeiros minutos da película, quando as mulheres se insurgem contra as arbitrariedades do talebã, o espectador sabe que nenhum destino será minimamente razoável ou aceitável

Naipaul escreveu sobre o islamismo em países não-árabes, e é um bom complemento a este e outros filmes na mesma temática.

Cidade de Deus, revisto agora, mostra algumas fragilidades. A direção de não-atores, que o Meireles parecia dominar, não era tão boa assim. Nada que inviabilize a fruição deste bom filme, que ainda tem o mérito de ter definido um divisor de águas no cinema nacional. Meireles, por sua vez, cresceu horrores como diretor, então a perspectiva muda de plano.

Nesta segunda passada, saltou à minha vista o destino semelhante de dois bandidos gente-boa. Cabeleira e Bené. Eles Read more…

Gabriel García Marquéz: Notícia de um Seqüestro

09.12.2009 gilvas 4 comentários

Notícia de um Seqüestro, apesar de levar o nome de Gabriel García Márquez em sua capa e ter sido escrito por ele, não é um livro do escritor colombiano. Famoso pelas fantasiosas reconstruções de seu universo familiar em romances como Cem Anos de Solidão, Márquez, aqui, estava preso pelas correntes da amizade a figuras de projeção nacional em seu país, e também à delicada situação política pela qual a Colômbia havia passado.

A narrativa gira em torno da série de seqüestros deflagrada pelo cartel de Medelín no começo dos anos noventa, com o objetivo de gerar moedas de troca nas negociações com o governo colombiano. Este vinha ameaçando com extradições as pessoas ligadas ao tráfico de drogas, e a violência jorrava de ambos os lados da contenda. Read more…

Jonathan Mostow: Substitutos

01.12.2009 gilvas 2 comentários

A duração de noventa minutos, na realização cinematográfica de qualquer calibre, é uma encruzilhada crucial. Cravar noventa minutos de filme é um objetivo nobre, e o realizador deveria carrega-lo consigo tal qual uma régua. Pela minha matemática simples, filmes que não alcançam noventa minutos deveriam ter ficado lá pelos trinta e poucos minutos que caracterizam um média-metragem, ou mesmo se contentado em um desenvolvimento rápido no formato de curta-metragem. A literatura permite que existam crônicas e contos além do romance, então porque a sétima arte não permitiria êxitos em metragens menores?

As durações longas podem ser necessárias: como contar um épico daqueles que atravessam gerações sem exigir três horas de um espectador? Maratonas de poltrona se prestam a este tipo de filme, ainda que muitos sejam decepções pavorosas como Sunshine, estrelado por Ralph Fiennes em algumas semanas pouco inspiradas. O território além das duas horas, todavia, muitas vezes é seqüestrado por diretores incompetentes, do tipo que não sabem aplicar a máxima de que “uma boa pescaria se faz pelos peixes que ficaram de fora”. Tarantino é um ápice desta modalidade, embora muitos filmes de ação tenham se permitido estes deslizes nos últimos tempos. Read more…

Gavin Menzies: 1421

Ao fechar o livro, a experiência proporcionada pelo volume 1421, subtitulado O Ano em que a China Descobriu o Mundo, pode ser divididas em duas facções sensoriais. Se, por um lado, o fascínio pelas descobertas e pela navegação marítima fornece o ímpeto da leitura, é a potencial correção acadêmica o que faz com que sintamos que gastamos nosso tempo com algo valioso, e não apenas com um exemplar apelativo que habitou o topo das listas de vendas por algum tempo.

Gavin Menzies é um piloto aposentado de submarino, e talvez este termo não seja o mais adequado para descrevê-lo. Paciência: a informação exata consta da orelha do livro, e você pode encontrá-lo em qualquer livraria de xópis. Sendo o tipo de pessoa que passou toda a vida singrando os mares, se é que podemos acreditar neste dado, Menzies é o cara correto para construir uma teoria da conspiração como a que vemos aqui. Read more…

Feira de Adoção

27.11.2009 gilvas 1 comentário

Neste sábado, dia 28.11, teremos feira de adoção no Xópis Iguatemi. O pessoal ficará até 20h00. Vale ressaltar: não serão recolhidos animais no local! Abaixo, cartaz do evento:

Apareça!

 

Placebo: Battle For The Sun

Ninguém falou do último disco do Placebo, Battle for The Sun, o que torna sintomático o seu título. Condenado à condição de dinossauro do rock após pouco mais de dez anos de carreira, o trio encabeçado por Brian Molko e Stefan Olsdal, não consegue escapar da ironia nem quando se trata de ter um baterista fixo: um terceiro nome se ocupa das baquetas neste disco.

Falar de volta às origens no segundo disco depois da tradicional coletânea de compactos da banda madura é outro clichê que se aplica aqui, mas com força reduzida. Depois de ter tocado com seus ídolos, como Frank Black e Bowie, ter recebido participações de outros, como Michael Stipe, e ter tentado mesclar o som com alguns artistas menos conhecidos com o claro objetivo de se manter jovem, chegou a hora do Placebo sossegar o facho, e se dedicar ao som que sabe fazer, sem maiores firulas. Até porque virtuose não é o caso aqui, o que é coerente com um cara que sempre estufou o peito ao dizer que seu método se resume a “nunca ter aulas de guitarra”. Read more…

Cláudio Torres: A Mulher Invisível

22.11.2009 gilvas 6 comentários

 

Ontem, durante o apagão local que se abateu sobre o condomínio Itacorubi II e redondezas, ruminei na escuridão a sessão de cinema nacional pirata que tive na quarta-feira. A Mulher Invisível, que havia sido recomendado por colegas de trabalho, os quais insistiram, inclusive, para que eu o visse. Uma indicação anterior, de Estômago, tinha sido excelente, e deve ser por isso que embarquei na melancólica incompetência que esta pretensa comédia romântica brasileira representa.
O filme é estrelado por Selton Mello, o pau-para-toda-obra do cinema brasileiro, e isto se aplica ao cinemão derivativo dos novelões da Globo e também a certas hipérboles irônicas que compõem um possível cinema independente de produção tupiniquim. Lá na capa está Luana Piovani, fetiche de meio Brasil, e que, convenhamos, não é lá tudo aquilo que os fãs gostariam que fosse, a ponto de ser possível teorizar que o Dado Dolabella tenha se sentido enganado mesmo. Read more…

Diehl e Donnelly: Devorando o Vizinho

10.11.2009 gilvas 1 comentário

Certos livros se grudam a certas fases da vida de uma pessoa, e a leitura de um trecho de um desses livros pode remeter claramente às sensações vividas pela pessoa em uma exata época. Desconheço registros formais deste tipo de sinestesia, mas ele pode ser testemunhado por mais de um leitor deste jornaleco digital.

Li a maior parte deste volume, subtitulado “Uma História do Canibalismo”, em meio às agruras e às incertezas que o trajeto de um cálculo renal pelo seu uretér provoca. Numa primeira análise, o desconforto da leitura poderia vir a se somar ao desconforto da dor, mas não foi o caso. Nada impede, entretanto, que uma futura olhadela no livro relembre a dor, ou uma futura crise, três batidas na madeira, não traga parágrafos inteiros do livro. Read more…