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Posts Etiquetados ‘ficção’

Pneumática

12.07.2007 gilvas 1 comentário

justamente o contrário, eu sei.

Ele vem correndo pela pista, em minha direção. Usa calça de abrigo, camiseta de algum evento de alcance limitado. Daquelas que a gente usa de pijama logo depois do evento. Se é que a gente, se é que a gente não ganhou do filho, que também não foi ao evento. Read more…

Ficção No. 52

21.06.2007 gilvas 1 comentário

“Não aconselho que te amofines, caro colega. Já faz tanto tempo que estamos aqui, somos quase amigos – pigarreou em “amigos”, não saberia dizer se foi antes ou depois de pronunciar a palavra – e não creio que aquelas nuvens negras sejam amigas.” Ficou feliz com a forma como fez soar a última palavra, o que o deixou satisfeito. Read more…

Ficção No. 51

dry

Porta lenta. Muito lenta. A porta do prédio demora uma contida eternidade até que eu ouça a batida inicial no quadro, e o subseqüente pigarro metálico da fechadura encaixando-se. Libero-me para caminhar. Até uma nova padaria. Nada contra esta aqui perto de casa. Pão gostoso, até. O lance é que estou parando de fumar. Bolei um jeito esperto para conseguir. Cada dia eu busco os meus cigarros mais longe. Read more…

Ficção No. 50

19.09.2006 gilvas 2 comentários

falling

A menina existia dentro daquele tablado. E apenas dentro dele. A voz dela o desagradava, jocosa, assim como as falas da peça, agressivas. Os braços dela deslizavam em padrões que o tranqüilizavam, e ele se distraía da utopia perdida. Read more…

Ficção No. 39

14.07.2005 gilvas 2 comentários
Munch, Dead Mother

Sentado na cadeira do consultório, Marco fecha os olhos, como nas sessões anteriores. O terapeuta mexe nos óculos, e aperta o botão. O barulho da fita tranqüiliza Marco, que sente-se, por um instante, fitando o interior de suas pálpebras. Marco começa a falar.

“Eles chegaram em algum dia disperso. Eu estava disperso, eles chegaram, e eu não saberia dizer exatamente como. Eu vi que pulavam o muro de trás de casa, e sabia que isso iria ocorrer, bastante tempo antes. Assim, tive tempo de se preparar, e sair pela porta da frente. Olhei para trás ainda uma vez, e vi que eles estavam circulando pelas calçadas da frente de casa, entrando também pelo portão.”

“Como eles eram? Como eles são, ora, eu fecho os olhos, e eles estão lá. Eu nunca mais voltei para minha casa. Ah, sim, eu conto. Eles são grandes, mais altos do que eu ou você. Têm cabeções arredondados, e olhos que lhes ocupam mais da metade do rosto. Eu os vi de longe, mas sei de quase tudo; eles são muito indiscretos, sentiam-se à vontade quando invadiram minha casa. E as dos vizinhos, imagino; Read more…

Ficção No. 31

 

Medo ela sentiu quando sua mãe foi embora sem levar o carrinho; depois disso, nunca mais. Sentada, ela observou os cabelos balançando-se na cadência de passos quase decididos. Sem entender. Sem lembrar. Ninguém poderia contar esta história dela. Apesar disso, o evento instrumentou a vida dela com uma insensibilidade que ainda não se conhecia. Não que fosse o caso de culpar aquela mulher tão distraída, não mais do que se poderia culpar qualquer genitora, e Flávia não era boba; sabia dar consistência misteriosa a seus atos.

A adolescência via Flávia com o rosto coberto de pó-de-arroz, e isso era mais do que uma excentricidade de ruptura. Flávia gostava da dificuldade que outras pessoas teriam em manter a máscara menos do que se regojizava com a sua própria facilidade em fazê-lo, resultante de sua condição. Read more…

Ficção No. 25

Old Snow

Lothar mantinha os olhos bem abertos dentro da pequena casa sitiada pela neve e pela escuridão. Sonhara com um alce escuro que andava em círculos em um descampado árido e desolado, com árvores silenciosas na distância muito além do toque.

Lothar movia os maxilares com vagar sob a barba espessa e velha, absorto no transe da preocupação. Já se passavam dois meses, pelo que pressentia, desde o sonho com o grande animal, e a noite austral o cercava de pressentimentos.

Logo de manhã, descobrira que não conseguia mover nenhuma das mãos. Analisara, observara as mãos de um ponto distante que conseguia erigir em sua mente. Entretanto, este mistério se mantinha além de sua compreensão. Read more…

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Ficção No. 20

vertigo

Sobre as árvores que cercavam a curva distante de asfalto e aço da cerca central, uma tarde anônima avisava que ia embora, mas apenas dali a pouco, que podia esperar um pouco mais, ouvir um pouco mais, se lhe fosse permitido. Read more…

Ficção No. 12

29.05.2004 gilvas 3 comentários

Depois de dois anos passados de deixá-la, ainda sabia que ela espreitava por ali, em algumas memórias, através dos olhos dos objetos aparentemente inanimados que serviam a ela, sempre a ele. Ouvira falar de obsessão nos corredores, mas seu emprego nunca fora um local de verdades, desde que entrara para encontrar algum direcionamento. Encontrara conforto financeiro, do tipo que se evapora dois meses após a indenização, deixando um rastro de contas de celular de tamanho suficiente para ser visto de picos não tão elevados, se devidamente impressos em formulários de papel branquíssimo, daqueles que precisam sofrer toda sorte de ação química até alcançarem uma espécie de Céu dos papéis de escrever, descendentes, agora desmemoriados, daqueles papiros de Egito e nações de areia.

E ela estava ali, como um fantasma, daqueles de filme mexicano, mal produzido. Um fantasma que tinha o poder de mexer com suas partes baixas enquanto decidia o que ia fazer com as partes, pretensamente altas, onde depositava uma confiança nua. Read more…

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Ficção No. 7

Caminhou até o final da plataforma de desembarque, tendo, de antemão, o fardo de saber-se atrasada e a certeza irritante de que não conseguiria estar mais atrasada do que o ônibus.

Seu sobrinho vinha de alguma cidade do interior, de perto de algum lugar onde seu marido nascera. Sobrinho alheio, vinha para ficar na casa de outra tia. Esta pedira a Gládis que fosse pegar o menino, e que o deixasse em casa dela.

Poucas pessoas caminhavam por ali, mas os lugares nas cadeiras estavam ocupados. Alguns vazios, mas a Gládis não agradava a idéia de sentar-se perto de estranhos. Ainda mais quando eles poderiam cheirar mal.

Vagou com o olhar as redondezas, afundando-se num fluxo próprio, que poderia alguém supor ser música. Esqueceu-se de si mesma por ali, até que uma certa mistura de odores anunciou-lhe a chegada do ônibus. Entre loas de lona, óleo, graxa e o bafo quente dos fluidos de radiador, moveu-se sem aperceber-se. Read more…