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Posts Etiquetados ‘resmungos’

Reciclando o Resmungo Anual

Um resmungo não faria diferença no meio de tanta euforia expressada por fogos e apupos na vizinhança da minha casa. Ainda que fossem ouvidos, não difeririam dos que emiti em épocas passadas.

É interessante: por mais que eu resmungue, o mundo continua tão idiota quanto sempre. Houve pouca variação nos grupos de pessoas abobadas a soltarem foguetes, assim como as novelas deste ano me pareceram idênticas às do ano passado. Posso ter confundido os horários, de modo que identifiquei traços de Malhação na novela das sete. Pode ser um efeito da minúscula amostragem que este escriba suporta de exposição à tevê.

Reclamo, mas me divirto. A tevê, ainda mais a aberta, fornece diversas oportunidades ímpares de diversão. Leia mais…

Capitalismo ptIV: Produção Cultural

Por baixo das banalidades da existência humana, devem existir ondas, como as de um profundo e violento mar subterrâneo. Estas vagas diluvianas explicariam porque certos assuntos voltam a nos assombrar com tamanha persistência, de tempos em tempos. O assunto que assombra esta noite tenebrosa, úmida e fria de outubro são as mazelas de tempo de execução do sistema econômico sob o qual vivemos. Como sou um escritor que preza por uma certa dose de relevância, foco hoje meus resmungos nos sucedâneos que nos vendem à guisa de cultura.

A Revolução Industrial definiu novos parâmetros para as atividades humanas, e centrou os esforços na criação de excedentes, alcançados pelas máquinas, pelos novos processos e pelas novas formas de exploração da mão de obra. Os socialistas utópicos novecentistas, que mais pareciam anarquistas em sua expressão, imaginavam que tal excedente permitiria que as pessoas tivessem tempo livre para se dedicarem às artes e a idéias elevadas. Eles morreriam horrorizados caso fossem colocados subitamente diante do panorama atual. Leia mais…

Peter Docter: Up

06.10.2009 gilvas 2 comentários

Tive poucas experiências em cinema com recurso 3D. Especificamente, foram duas. A primeira se deu com a terceira parte de Era do Gelo, onde a franquia mostra que está perdendo fôlego: as repetidas citações e as repetitivas correrias, sem falar na excessiva exposição de Scrat, aproveitam-se das possibilidades da profundidade expandida para evitar o fato de que não há muitos caminhos por onde levar Sid, Diego e Manny.

Observando a turba presente na exibição, reparei que existe uma disparidade considerável entre a expectativa do freqüentador de cinema de xópis e o que o cinema tridimensional efetivamente entrega. As reclamações são explicitadas em diversos formatos, mas o conteúdo é o mesmo: as pessoas entram no cinema esperando mirabolantes sensações, com objetos do filme atravessando o espaço ao seu redor, uma espécie de mergulho ou imersão dentro da realidade virtual, e tudo que recebe é uma maior noção de profundidade, se comparada com a projeção convencional. Leia mais…

A Guitarra Nerd da Barbie

27.09.2009 gilvas 5 comentários
A data não consigo precisar, mas deve ter sido na época em que me formei, talvez um pouco antes, e realmente não importa quando, mas o que ocorreu: resolvi deixar de perder meu tempo com jogos eletrônicos. Colocando em forma de texto, pode parecer que foi difícil, mas não é o caso, as razões abundam.
Os jogos eletrônicos mudaram muito desde que minha versão adolescente raspava os fundos dos bolsos em busca das últimas moedas para inserir nos taitoramas de Little Boats City, costume que mantive enquanto ainda havia boas casas do gênero no Kobrasol e no Centro de Floripa. “Boas casas”, obviamente, é uma denominação irônica.
Houve um dia marcante, entretanto: resolvi encarar uma novidade dos taitoramas, e deixar um pouco de lado minhas amadas máquinas como Ikari Warriors e Scramble Formation. Coloquei a ficha, e aguardei a abertura. Eram seis botões, e o controle era operado de uma forma um súbita para meu gosto. Esqueci quem era o inimigo, e nem lembro quem era o meu personagem, embora suspeite que fosse o Ryu. Perdi a ficha tão rápido que nunca mais joguei Street Fighter.
Logo deixei de jogar fora de casa, e o último jogo que me divertiu foi Cadillacs & Dinossaurs, que, soube alguns meses atrás, causar nostalgia em diversas pessoas. Presumo que o sentimento de perda seja mais amplo do que eu imaginava.
Em casa, mergulhei com o 486 cansado no castelo de Wolfstein 3D, que me consumiu noites e noites de sono. Logo depois tentei rodar o primeiro Doom, mas a maquininha pediu água, resfolegou, e deixou-me a ver navios. Algum tempo passou, e a máquina foi substituída, mas aí eu já não queria Duke Nukem, que, imagino, deve ter sido a febre seguinte no mundinho de primeira pessoa.
Perdi ainda algumas horas de almoço com jogos de estratégia, do tipo que você vai expandindo suas fronteiras e equipando seu país, ou algo assim. Foi uma fase curta, que culminou em alguns insights, que acabaram por me afastar de vez do espancamento de teclados ABNT.
Um dia eu percebi que poderia me viciar em qualquer porcaria de jogo. Sério, eu cheguei a me esforçar para ir bem em partidas de Paciência e Free Cell! Se isto não for o fundo do poço, eu sou uma funcionária de meia-idade em alguma autarquia enroladora de velhinhos.
Eu precisava parar, e, para tanto, deveria transformar meu impulso em uma convicção embasada; as coisas funcionam assim por aqui. Já observaram como, em diversos aspectos, os joguinhos eletrônicos se parecem com masturbação? Bingo!
(não o jogo, leitor engraçadão.)
Distanciei-me desta bobagem, e logo depois me afastei da televisão, que larguei após a barra de uma overdose dividindo apartamento com um colega que tinha tevê por assinatura. A vida dá voltas, dizem, tanto que tem momentos em que a gente enjoa.
(pausa para rir da minha piada ruim.)
Hoje em dia, como um ex-viciado extremamente aderente ao conceito, eu desdenho dos que permaneceram na vidinha de punhetar na frente da televisão. Sim, eu mantenho aquele olhar distante, com uma sobrancelha levantada, e quase gargalho.
(não é tanto assim, mas o teatro é minha segunda natureza.)
Se há algo que me irrita profundamente é ver gente graduada, pós-graduada, pós-após-graduada, e congêneres acadêmicos, justificando o que já não conseguem entender, mudar ou evitar. Os adolescentes no mundinho lá fora são um bando de idiotas do tipo que não consegue ler orações com mais de dez palavras, e há sempre um “dotô” para dizer que “a geração Y quer respostas rápidas” em vez de botar ordem no barraco e colocar esta molecada jaguara para estudar.
Segue. O moleque vive no MSN? Deixa estar, pelo menos “está digitando bem melhor, olha só se eu consigo digitar rápido como meu filho!”. O infante xarope não larga o jogo eletrônico nem para ir ao banheiro? Está “desenvolvendo habilidades essenciais para sobreviver e triunfar na era da internet.” Fica enchendo o saco dentro de casa, dizendo que está entediado? “Ah, ele é hiperativo!” Minha avó diria algo na linha “Dá uma enxada para ele capinar que já sossega.” Velhinha porreta.
Para fechar os resmungos, resolvi fazer uma ponte com meu último texto, aquele que fala de punks e de como é legal se sentir incentivado a tocar algum instrumento, mesmo sem saber. No meu caso, acho que foi o Peter Buck o modelo. Ele deve ser um dos melhores guitarristas toscos que eu conheço; ele é o Rei do Lá Menor, e não faz feio com o Ré Menor. Sem piada.
Li, em algum portal de notícias que raramente acesso, uma chamada para uma reportagem onde o Guitar Hero era incensado por estar fazendo os jovens retomarem o gosto por rock clássico. Era tudo o que eu precisava para fazer a bile subir ao esôfago. Cáspite.
Para começar, eu posso até gostar de Pink Floyd ou Led Zeppelin, mas porque o universo musical de uma pessoa respeitável precisa necessariamente começar em Rolling Stones, passar por Zep, Queen e FLoyd, se atravessar em AC/DC e Ramones para desagüar em Nirvana, a última coisa aceitável no mundo dos trintões? E porque aquela alegria imensa em ver os filhos gostando da mesma coisa que os pais? Coisa jeca!
Nos bons tempos o moleque escutava um disco, ficava em estado transcendental com aquele refrão ou com aquela mudança de acorde, e ficava babando, pensando em como seria legal tocar daquele jeito. Nos anos oitenta, ele teria de esperar a música sair naquelas revistinhas de música em papel jornal, ou falar com algum conhecido que soubesse tirar música de ouvido. Depois veio a internet, e facilitou um pouco as coisas, mas ainda assim, você precisa ter um mínimo de noção de espancamento de viola para usar uma tablatura e uns acordes, e você teve de aprender isso em algum momento.
Aprendia. Passado. Hoje você provavelmente se limitará ao Guitar Hero. Podia ser pior? Sim, karaokê, uma praga nipônica que nunca foi devidamente levada a sério.
Deixa estar: esta chuva toda faz doerem todas as minhas juntas previamente estragadas ao longo desta vida de desregramento. A última parte é mentira, mas faz com que eu me sinta num universo onde reinam a causa e o efeito, e isto me faz dormir muito bem.

A data não consigo precisar, mas deve ter sido na época em que me formei, talvez um pouco antes, e realmente não importa quando, mas o que ocorreu: resolvi deixar de perder meu tempo com jogos eletrônicos. Colocando em forma de texto, pode parecer que foi difícil, mas não é o caso, as razões abundam.

Os jogos eletrônicos mudaram muito desde que minha versão adolescente raspava os fundos dos bolsos em busca das últimas moedas para inserir nos taitoramas de Little Boats City, costume que mantive enquanto ainda havia boas casas do gênero no Kobrasol e no Centro de Floripa. “Boas casas”, obviamente, é uma denominação irônica.

Houve um dia marcante, entretanto Leia mais…

12.07.2009: Tangos e Tragédias

13.07.2009 gilvas 1 comentário

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Deve ser a quarta vez que vejo o espetáculo Tangos e Tragédias, e já falei sobre isso, com alguma propriedade, aqui. Ainda que não haja novidade, há diversão, ainda que os esquetes sejam os mesmos. A repetição, entretanto, atenua o impacto, e permite que a mente devaneie pelos aspectos periféricos do espetáculo, como tratarei a seguir. Leia mais…

O Silêncio dos Culpados

18.06.2009 gilvas 2 comentários

Quinta-feira, dia 11 de junho do ano corrente, foi um dia frio e ensolarado, como a maior parte dos dias daquela semana. Era feriado, Corpus Christi, mas também era o primeiro dia das minhas atuais férias e o dia em que meu pai completava 49 anos. 49, sete ao quadrado, deve fazer sentido para místicos e para engenheiros, acabo de pensar. Leia mais…

Capitalismo pt III: Cacarecos Tecnológicos

13.05.2009 gilvas 7 comentários

Dos males que a sociedade sofre, um dos mais entranhados é a confusão dos parâmetros. Encharcadas pela publicidade abundante, as pessoas esquecem do salutar exercício de pensar quando adquirem objetos e serviços. Ontem mesmo tive um exemplo muito claro: ao elogiar a câmera de um celular, um colega, engenheiro competente, salientou que o equipamento em questão tinha, digamos, oito megapixels de resolução, tratando isto como um sintoma de funcionalidade redentora. Cáspite. Leia mais…

Capitalismo pt II: Impermanência

O capitalismo reinventa valores com uma criatividade invejável. Um exemplo é o conceito de Impermanência, que acompanha o desapego em diversas formulações filosóficas orientais, notadamente o budismo zen. Esta absorção é anterior à onda de nova era que atravessou o mundo ocidental na década de noventa, e que deixou edifícios em diversos quadrantes da auto-ajuda. Leia mais…

Capitalismo pt I: Monopoly

14.04.2009 gilvas 4 comentários

O encarte de Airbag EP, do Radiohead, traz um encarte cheio de surpresas. São chistes mau-humorados Leia mais…

As Dores de Alan Moore

23.01.2009 gilvas 2 comentários

pai, eles não sabem o que fazem!

Alan Moore é um sujeito que deve se incomodar um monte. Não, eu não conheço Alan Moore, a pessoa. Vi algumas fotos, e ele, visualmente, é o tipo de cara que você encontra em botecos sebentos de rock, aqueles lugares onde se reunem pessoas que dizem conseguir perceber a diferença entre o som de um CD e de um vinil. Caso você não costume visitar estes lugares, pense em algo como um cabeludo breaco quarentão de camiseta de banda, e que vai te olhar como se você estivesse invadindo o santuário dele. O tempo todo. Para o caso de uma pesquisa de campo em Florianópolis, recomendo fortemente o Talyesin. Leve uma câmera. Leia mais…