Anton Tchekov: A Aposta

aposta
Um camarada meu, descendente de japoneses, certa vez estava no país natal de seus antepassados, e resolveu adquirir um dos bens mais caros ao povo nipônico: uma câmera fotográfica. Na loja, o vendedor lhe apresentou diversos modelos, e ele indagou sobre as diferenças entre os modelos, no que foi respondido com uma sequência de dados técnicos pouco apropriados à sua condição de novato no assunto. Assim, em sua praticidade sorridente, formulou uma única questão, que iria fornecer o subsídio para a decisão sobre a compra. Ele disse: “Qual delas fotografa melhor?”, e deixou claro o aspecto qualitativo e subjetivo de sua pergunta. E descobriu que um dos modelos “deixava as pessoas mais bonitas”, enquanto o outro trazia maior riqueza de detalhes.

Eu pensava nisso enquanto lia as últimas páginas de uma pequena coletânea de contos rápidos de Anton Tchekov, “A Aposta”. O livrinho, efetivamente “de bolso”, traz uma sequência de instantâneos de figuras tipicamente russas. Porém, como em Dostoiévski e em Tolstói, por exemplo, a caracterização russa é transcendida, e um caráter universal surge, um relance da natureza humana. Os russos podem trabalhar em escopo semelhante ao de seus contemporâneos vizinhos europeus, mas existe um caráter único que os diferencia, e os torna indispensáveis. A descrição dos acontecimentos banais em cada pequena história vão se complementando, e construindo um retrato daquela pessoa que mora lá dentro de nós, cheia de picuinhas, medos, ressentimentos, e toda sorte de limitações e frustrações.

O conto que dá título à coletânea é o único que possui um enredo menos cotidiano. Ele versa sobre a aposta entre um banqueiro e um advogado, onde o segundo dispõe-se a ficar preso durante quinze anos em troca de dois milhões de rublos. Tal sacrifício comprovaria que a prisão perpétua é menos inoportuna do que a pena de morte. Todavia, também este conto explicita a mesquinha condição humana, seja pela percepção adquirida pelo advogado, seja pela postura desprezível do seu carcereiro.

A câmera russa não tira fotos “bonitas”, por mais que se esforce. Pudera, com os modelos que possui.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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Uma resposta para Anton Tchekov: A Aposta

  1. humberto mac disse:

    vc viu a arca russa, gilvas?

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