Eugen Herrigel: A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen

Eu estava apreciando meu chá, e folheando meu exemplar de A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen, escrito por Eugen Herrigel.

Enquanto sorvia o chá, sorria com o pensamento de que agora estou acostumado a ele. Inicialmente achava que ele era ora amargo, ora insosso. Algum tempo trouxe-me a qualidade necessária à apreciação dele, e hoje eu o enxergo como mais uma das facetas da prática do caminho.

Herrigel foi um professor alemão que passou uma longa estada no Japão para lecionar filosofia. Enquanto estava lá, praticou uma das mais inúteis artes de que se tem notícia: o tiro com arco.

Você pode até imaginar o tiro com arco útil, afinal o Rambo explode helicópteros com um prosaico arco hitech, mas imagino que seja apenas sarcasmo; podemos concordar que o tiro com arco seja uma arte inútil, portanto.

Este livro habita a cabeceira de diversos ocidentais que cismam em tentar adentrar os segredos da sabedoria oriental pela leitura. Nada de mal, não fosse a percepção falha de que se possa penetrá-la.

Meu parco conhecimento me traz poucas referências, e uma delas é a de que a sabedoria oriental se sustenta na prática. Em outras palavras, a experiência não é transmissível, a educação não se dá pela transmissão de conhecimento.

E eu comecei o parágrafo anterior usando a palavra “conhecimento”. Os sãos podem largar este texto agora mesmo.

Existe toda sorte de bem intencionados fãs da sabedoria oriental. Eles possuem templos diversos, desde o feng shui da Bons Fluidos até os salameleques de seda nos templos de rituais berrantes.

Boas intenções, mente ocidental. Lêem alguma coisa, aprendem os maneirismos, acham lindos a indumentária e aquele ar de paz que passam os praticantes das artes do chá, da espada, do tiro com arco e marciais.

Mas foge a estes admiradores a essência, que é a prática. Acostumados com a aquisição de conhecimento ou bens materiais, tentam adquirir a calma, a leveza, a elegância, e outros aspectos da cultura oriental pelo viés da nova era. Como não encontram estas “abstrações” nas prateleiras, acabam levando aqueles cacarecos bonitinhos, com ideogramas “Paz”, “Saúde” e congêneres.

Herrigel esteve lá, e dispendeu seis anos praticando diariamente, sob os auspícios de um mestre que não conhecia os rituais da educação européia. Herrigel praticou, viveu a experiência, provavelmente. O que ele passa é o gosto de ter estado lá, e muitos podem confundir tal gosto com a experiência em si.

Ler este livro em concatenação com a prática que venho vivenciando no aikidô dá uma impressão de similaridade, de analogia entre caminhos diversos. Assim, torna-se salutar ler este simpático livrinho.

Fora da esfera da prática, porém, melhor ficar com as edições de Vida Simples, ouvindo aqueles CDs de flauta tibetana com batidinhas lounge ao fundo.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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Uma resposta para Eugen Herrigel: A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen

  1. humberto mac disse:

    ai, medo. pra mim conhecimento sempre foi sinônimo de abstração. e a vida um ensaio de como a vida deveria ser. tudo sendo gerado, apenas, na cabeça.

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