Romantismo e Sinestesia

Existem pessoas, a maior parte pelo que observo, que não compreendem e não poderiam ser românticas. Talvez melosas, mas não românticas no sentido da apreciação ampla dos eventos arrebatadores que a mais simples das vidas pode proporcionar a seu protagonista.

Pessoas que não entendem porque comprar um CD é infinitamente mais interessante do que baixar um mp3.

Quando eu compro um CD, existe todo um ritual. No sentido mais clássico, eu vou a uma loja, deslocando-me de casa, vendo pessoas, sentindo a temperatura, talvez esteja chovendo. Chegando na loja, eu desenvencilho-me dos vendedores com um típico e eficiente “Estou só olhando, se precisar te chamo, obrigado”, e saio fuçando as prateleira de caixinhas plásticas translúcidas. E chovem surpresas, decepções, disquinhos que você vê enfim com o preço baixo que te convence a comprá-los, lançamentos de bandas que você achou que tinham acabado, novas coletâneas picaretas com as mesmas músicas de sempre.

Depois de esmiuçar as prateleiras, e colocar aqueles fones de qualidade e higiene duvidosa nos ouvidos, você escuta algumas canções de artistas que não conhece, e acaba se decidindo por um ou mais títulos que serão agregados à sua coleção. Vai ao caixa, e o atendente fica olhando seus CDs enquanto a maquininha de cartão conversa com o banco.

Você sai pela rua, que tem novas pessoas, e talvez uma nova temperatura. Senta em um café, ou mesmo no ônibus, e começa a abrir suas novas aquisições, ritual que você pode ainda executar em casa, diante do seu templo em forma de aparelho de som.

As capinhas se abrem, e vem aquele cheiro de tinta nova, e existem encartes com cheiros muito peculiares. Enquanto os acordes soam, você lê detalhes técnicos no encarte, e suas sensações auditivas se misturam às olfativas e visuais. Ou mesmo tácteis, quando o encarte possui textura diferenciada.

E aí está o ponto que eu quero colocar: a experiência estética da música associada a um suporte material diferenciado, seja um CD ou um LP de vinil, exemplifica claramente a sinestesia que batiza este espaço aqui. Depois de algum tempo de convivência com aquele conjunto de informações sensoriais, outras se agregarão: amores, brigas, acontecimentos trágicos, e o CD carregará essas marcas, enriquecendo sua história particular.

Um mp3 te proporciona essa gama mexicana de emoções?

Anúncios

Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
Esse post foi publicado em Filosofia de Boteco, Música e marcado , , , . Guardar link permanente.

3 respostas para Romantismo e Sinestesia

  1. humberto mac disse:

    lembrei de qundo fui comprar o cd moon safari, do air. uau, que experiência. e que vontade de chagar logo em casa para ouvir.

  2. Jonas disse:

    Até poucos meses atrás eu tinha o hábito religioso de comprar pelo menos um cd por semana. Raramente eu baixava discos. Mas agora parei de trabalhar (eu trabalhava desde os 14 anos) e estou sem grana, fazer o que? E na minha ‘profissão’ é bom conhecer os discos antes do lançamento, para não dizer essencial. Então sou obrigado e deixar o romantismo de lado.

  3. Walkiria disse:

    CD sempre tem histórias agregadas
    Sejam correlatas à aquisição
    Seja às pessoas que o desfrutaram…
    Trágico é quando
    Em fins de um romance
    Uma love story
    Sem Happy end
    O ingrato, traidor, cruel
    Desafeto danado
    Descartador ou descartado
    Tragédia grega mesmo
    É se o sujeito, ou sujeitinha
    Ficar com teus melhores CD’s…
    E nem te diz
    “Ah, fulano, muiiiiittto obrigado!”…

    Estava com saudades de teus textos, cada dia mais saborosos…

    Bacci…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s