Eduardo Coutinho: Edifício Master

Edifício Master já havia começado quando cheguei à sessão das cinco no CIC, um horário bem esquisito. Cheguei um pouco atrasado, e calculo que perdi dois depoimentos, o que não deve ser tão devastador na possibilidade de apreciação da película.

Minha cabeça estava cheia de expectativa gerada por resenhas favoráveis, opiniões de amigos que se mostraram apaixonados, e, sobretudo, a boa fase pela qual passa nosso cinema. Devo confessar, desde agora, que me decepcionei um pouco.

Adianto que não sou uma sumidade em documentários, os quais conheço mais das séries do Globo Repórter ou Discovery Channel do que de seu primo da sétima arte. Assim, a sensação de desconexão que senti nas histórias pode ser apenas fruto de uma mente despreparada para criticar filmes desta classificação.

Uma outra explicação para a falta de foco poderia ser a grande variedade humana presente no prédio, além de outras considerações menores sobre as intenções por trás da filmagem. Todavia, não consegui deixar de sentir que o filme parecia mal compilado ou mal editado.

Um dos fatores que seduziu crítica e espectadores pode ter sido o aspecto peculiar de boa parte das histórias de uma gente muito simples. Por este ângulo, vejo que este filme poderia ser filmado em dezenas de outros lugares. No balcão da farmácia da minha mãe, por exemplo, ouvi histórias tão, ou mais, interessantes do que aquelas apresentadas no filme. Acredito que isso se suceda em todas as regiões do Brasil, com destaque para as metropolitanas, obviamente. A concentração e o distanciamento da realidade mais simples da vida é geradora de situações e vidas absurdas.

Outro ponto foi a empatia gerada pelos entrevistados, e essa talvez seja uma deficiência da platéia, uma vez que o diretor possuiria pouco controle sobre essa intenção em um documentário, uma vez que não dirige os atores, mas apenas os entrevista. Minha percepção, na sala do CIC, foi de um encantamento geral da audiência diante das pessoas entrevistadas, e isso me surpreende. A própria novidade dos relatos é assustadora, remete à crônica falta de comunicação humana, e à falta de respeito com o povo simples e esquecido que vai parar nos Edifícios Master da vida.

Em outras palavras, por mais que as histórias fossem boas, e eram, as pessoas que as contavam não seriam pessoas de convivência fácil, como sugere o curto intervalo das entrevistas. Entendo que seria necessária uma ênfase em dizer que o filme é sobre as histórias que ocorreram, e não sobre as pessoas que estão ali, sendo entrevistadas.

Essa imagem surge forte, principalmente, na imigrante espanhola, que possui fenomenais olhos azuis e uma força de espírito magnífica, e expõe sua peculiar visão sobre as agruras dos pobres no Brasil. Em outra cena, a pintora de horas vagas fala de sua irmã e mãe doentes, e eu teria medo de ser a mãe ou a irmã junto àquela mulher.

Em suma, Edifício Master é uma peça que cumpre bem a tarefa de nos remeter a um microcosmo esquecido e escondido, que é espelho de outros Brasil afora, mas escapa ao mérito de provocar uma experiência estética de maior impacto.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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2 respostas para Eduardo Coutinho: Edifício Master

  1. humberto mac disse:

    finalmente um filme que eu também vi. hehehe.

    não lembro muito bem do filme. realmente ela nao é dos mais relevantes. mas fiquei com medo de uma freak completa, que não olhava para o entrevistador, lembra dela? uma que era professora, se não me engano…

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