Pirataria

Em minha ingenuidade, imagino que alguém use um tênis de marca porque ele denota um padrão de qualidade que a empresa detentora da marca manteria. Claro que o diabinho no meu ombro esquerdo tem de entrar em ação, e dizer “polianesco gilvas, as pessoas compram marcas para ostentá-las!“. Desta forma, o que poderia ser uma garantia de qualidade passa a ser apenas um símbolo social, e passa a ser mais um tiro que a sociedade de consumo dá em seu próprio pé.

<infâmia detectada>

Como ocorre? Um produto que vale apenas pela marca que é colocada sobre ele prescinde de análise crítica por parte de seu consumidor. Se a marca é o énico critério, o seguinte é o preço, de modo que eu vou comprar o equivalente genérico. Neste último o preço é bem inferior, seja pela qualidade inferior, seja pela ausência de custos de publicidade massiva que os produtos de consumo exigem.

Levando o raciocínio mais adiante, podemos concluir que a luta contra a pirataria, a grosso modo, resume-se a uma defesa das cotas de publicidade associada a um produto.

No caso dos discos, existe um custo de produção do artefato artístico, que vem caindo muito com o advento de estúdios caseiros mais poderosos, e acesso facilitado a técnicos e músicos de apoio.

O problema recai na publicidade novamente. A gravadora pega um artista, e o coloca nas listas de jabá, nas capas de revistas, nos programas de entrevistas, arranja Lúcios Ribeiros e NMEs e Rolling Stones para gerar hype em torno deles… e então o povo baixa todo o material em mp3, ou compra na banca do camelô da esquina.

A banda, ou o artista, seria a logomarca, da qual se espera qualidade e alguma atitude ou característica. Mais uma vez, não é isso o que importa. É “correto”, em cada grupo social, gostar de determinados artistas, e isso varia em escalas enormes, desde aquela banda indie dinamarquesa desconhecida até aquele grupo de pagode que apareceu no Gugu na semana passada, passando por arcanos da MPB e pelas boy bands.

O senso crítico, destroçado pela publicidade e desinformação, seria necessário para que as pessoas escapassem das marcas, adquirindo produtos pela análise de sua qualidade e adequação a seu modus vivendi. Esta é a situação para os discos, e estende-se a todos os produtos de consumo dos quais eu consigo lembrar neste momento.

Em suma, publicidade gera a burrice consumista que gera a pirataria.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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