Jack London: A Praga Escarlate

Esta obra foge ao ambiente selvagem que fez a fama deste escritor americano. E, talvez, por isso, soe mais como um exercício do que propriamente uma obra. As descrições ricas estão lá, assim como os personagens de traços rápidos e fortes. Todavia, um desconforto acompanha o leitor entre as linhas do texto, e este desconforto pode bem ser um reflexo da sensação de London ao escrever o texto.

Ele embrenha-se pelo futurismo, com resultados pouco distintos dos de outros que também o fizeram; os dispositivos descritos são disparatados, podemos compensar nossa interpretação com boa vontade, e entender que as extrapolações são as formas mais seguras para a descrição de realidades futuras, embora dificilmente escapem do vexame diante das infinitas variações proporcionadas pelas infinitas variáveis que habitam uma realidade complexa como a nossa.

Todavia, existem aspectos interessantes de metafísica. Elucubrações sobre a falta de habilidade do homem moderno em viver com os recursos da natureza, sem depender de manufatura, por exemplo. A tênue teia de convenções que permite a manutenção da sociedade, sem a qual desandamos violentamente em grupos desgarrados de selvagens. O desandar da cadeia social por ocasião da quebra de posições absolutas e desesperançadoras. London trai pouco seu didatismo e suas panfletarismo socialista, e isso é louvável em uma obra que se pretenda mais do que um folhetim.

James Smith, o professor de letras, e último dos seres humanos que lembram do mundo como era antes do cataclisma, é um espírito erudito, que desconhecia o trabalho manual, e vê-se lançado em uma realidade que exige que toda a comida seja conquistada, dia a dia. Ele vê seus descendentes capacitarem-se para a sobrevivência, ao custo do que ele entende como civilização. Novamente o distanciamento do homem e da natureza: como equilibrar erudição e percepção de natureza, interior e exterior?

Por fim, o inevitável, a realidade cíclica. A estupidez da humanidade a ser redescoberta, até que seja novamente salva de si mesma por uma nova epidemia.

Nas últimas páginas deste volume, vou deixando para trás a impressão de já conhecer este texto, um deja vu, um gosto já sentido. Penso que o tema de um futuro apocalíptico já tenha sido por demais aproveitado, e em tantas mídias quantas foram viáveis, e hoje a idéia popula nosso subconsciente como se fosse universal.

A Conrad faz um belo trabalho editando esta obra, com suas belas ilustrações internas, e sua capa negra ilustrada em vermelho metalizado, gerando uma imponência incomum a estas edições ditas de bolso.

London tem o gosto das tardes da infância, onde nossas cabeças ondulavam ao sabor das aventuras em terras distantes e inexploradas, sejam elas reais ou imaginárias.

Anúncios

Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
Esse post foi publicado em Literatura e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s