Ovídio: A Arte de Amar

Existe uma canção detestável, de uma banda detestável de Nova Jersey, que fala sobre uma pessoa que “fala mal do amor”, em uma tradução livre de minha parte. Lembrei disso quando ia falar da principal mensagem que Ovídio nos deixa em seu adoravelmente ingênuo A Arte de Amar.

Minha transcrição da mensagem é “Deixe o amor ser leve, até mesmo leviano; ele não foi feito para complicar nossa existência, mas para pintá-la de novas e fortes cores”. Talvez eu devesse substituir “transcrição” por “interpretação” para ser mais preciso, mas acredito que ambas as palavras alcançam a comunicação que almejo.

Passei por dias pensando que deveria fazer tudo certinho para amar ou ser amado, e me vem este romano para lembrar-me do óbvio: a natureza do amor é a de um folguedo, leve e irrepreensível, uma brincadeira. Poderia ampliar este escopo a toda a vida, mas custaria-me argumentos que seriam desnecessários para aplicar a mesma prova ao amor, tão clara é a natureza brincalhona de uma abstração simbolizada por um anjo portador de singelas flechas. Poderia o Cupido esperar ser levado a sério?

Eu tirei uma lição desta leitura, mas há outros atrativos no texto. Ovídio dá exemplos da mitologia greco-romana, e fotogramas da vida cotidiana de Roma, desvendando costumes insólitos que provocam boas risadas. Sua visão dos estratagemas de ambos os sexos é lírica, e mostra que as coisas realmente não mudam no campo do amor. Mesmo que as mulheres atuais não usem combinações bizarras de ervas em sua maquilagem, ou que garotos desventurados pela derrota na conquista amorosa não mais cacem cervos como distração.

Cabe lembrar que o texto principal, da Arte de Amar, são destinados dois capítulos aos homens, e um capítulo às mulheres, onde o autor se desculpa por estar fornecendo armas ao exército inimigo, e mostra graciosidade ao declarar que a boa guerra se faz em confrontos de oponentes bem armados.

Há ainda um texto, muito útil, contendo conselhos para aqueles que tentam se livrar das lembranças de amores mal resolvidos, e um curto ensaio sobre a maquiagem das mulheres, que fica valendo mais pela poesia empregada do que propriamente por seu potencial de concorrer com apanágios modernos da linha Avon.

No mais, a poesia de Ovídio convida a festas em togas, regadas a vinho e canções fraternais, lembrando a bela apologia ao álcool contida em A Drinking Song, do apropriadamente irlandês Neil Hannon. É um livro que nos conclama a sermos felizes, e tornarmos o outro feliz.

A ilustração da capa lembra sobremaneira as capas dos gibis da linha Vertigo, com seus modelos naturais, e, mesmo assim, no espírito do texto que encerram.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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5 respostas para Ovídio: A Arte de Amar

  1. Turnes disse:

    achei a capa de uma dubiedade meio homoerótica. parecem dois rapazolas alegres curtindo um picnic sacana.

  2. Carol disse:

    eu achei chato

  3. anne disse:

    nossa, acho que nunca li nada tão parecido com o que eu penso sobre o amor. quem foi que disse que tem que ser eterno, durar a vida toda ou anos?

    sei lá, talvez tenham sido a igreja católica, os filmes de hollywood ou a música pop que tenham feito uma lavagem cerebral pra gente acrditar que o amor tem que ser pra sempre. mas não é. e tudo fica muito mais fácil quando você reconhece isso. você não sofre por coisas que não acontecem, não são correpondidas. você simplesmente vive aquele momento do amor porque é aquilo que tá ali acontecendo naquela hora ( “eterno enquanto dure”, já disseram o que eu escrevi de um jeito bem melhor )

    okey. mas confesso que queria viver uma canção de amor. daqueles eternos e cheios de clichês :/

  4. humberto mac disse:

    que ótimo. preciso ler isso.

    (se eu não estivesse trabalhando 13h por dia, talvez…)

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