Cake

Ontem meu parceiro de comissionamento estava me aplicando a costumeira surra no prosaico jogo de sinuca, modo catarina, a saber, menores para um, maiores para outro, e a oito de castigo correndo na mesa.

Rolavam seleções sonoras de gosto duvidoso, e qualquer um já deve ter deduzido que era eu o disk jockey. Comecei com a coletânea do Crowded House, e emendei para um Cake, Confort Eagle, que eu acho que nunca tinha ouvido.

Sempre achei Cake um som interessante para acompanhar atividades de bar. Aquela atmosfera vagamente chicana, aquela guitarra vagabunda, o baixo cheio de ritmo, o trumpete jaguaríssimo, e aquele vocal de hiena Hardy, porém provido de uma aceitação da realidade malvada e cruel com a qual a personagem de Hanna & Barbera nunca teria sonhado.

Não estou escrevendo a resenha do Confort Eagle, até porque não lembro de quase nada do que ouvi, distraído que estava tentando demonstrar habilidades desportivas que não habitam minha pessoa. Eu tenho certeza de que se tratava de Cake, devido às características supracitadas, mas as peculiaridades das canções fogem-me agora. Paciência.

O ponto que eu lembro, foi quando o atendente do hotel veio com um par de sucos de cevada em invólucro de alumínio, e passou a observar nossas tacadas absurdamente ruins. Como tratava-se de um rapaz educado, ele tentou encontrar uma razão plausível e inofensiva para tanta ruindade.

E ele conseguiu: olhou para o som, e soltou: “Eu até entendo como vocês jogam tão mal, pudera, com um som triste desses!”.

Cake triste! Aqueles hinos looser carregados de ironia e palavras de um vocabulário chulo, como apenas californianos conseguiriam. Aquele som que pede tequilas, e o exercício de meia dúzia de palavras mal ajambradas em espanhol de beira de estrada.

Sei lá, eu até entendo que os vocais soem um pouco entediados, com inflexões mariachi nas esquinas das estrofes, mas não posso chamá-los de tristes. Existem canções lentas tocando aos borbotões nas rádios, e as pessoas não as consideram tristes.

Desencano pensando em Loosing My Religion, canção tristíssima que tocava em boates quando o R.E.M. explodiu no Brasil e no mundo, e que fazia maurícios e patrícias se esbaldarem nas pistas.

E eu preciso logo sair daqui; em breve estarei comentando briga de cachorros na praça.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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4 respostas para Cake

  1. André HP disse:

    Os comentários do seu blog tem um problema com acentuação. Deve ser algum bug no code.

    • gilvas disse:

      na verdade, são apenas os comentários antigos, pois eu tive uma falha grave de conversão alguns anos atrás. ainda estou corrigindo os textos que sofreram com esta conversão desastrada, e não sei se consertarei os comentários. obrigado pelo toque!

  2. Rrudrigo disse:

    Falando em gargalhadas, o que me fez rir foi o tal de “jaguaríssimo”. Há muito que e nao ouvia (ou lia) essa palavra.
    Só não me diga que vc tb usa a palavra “bobiça”. Acho que essa é exclusiva do meu pai.

    Um Abraço.

  3. humberto mac disse:

    é verdade, rem sim pode ser tristíssimo. e eu acho que é. até em músicas como “night swimming” que me lembra, oh doidera, jaú, no interior de são paulo.

    suco de cevada foi ótimo. me arrancou gargalhadas aqui. 🙂

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