Nenhum de Nós no Teatro Ademir Rosa

que cara medonha, thedy!

Cheguei atrasado para a única apresentação do Nenhum de Nós em Florianópolis pela turnê do seu novo acústico. Uma música hipnótica embalava uma platéia heterogênea, que ia de adolescentes acompanhados dos pais até trintonas, passando por universitários de diversos matizes.

A banda, reforçada por dois instrumentistas, abre o show com Você vai Lembrar de Mim, levantando uma platéia que já estava ganha. O septeto possui um poder de fogo invejável, garantido por três violões, e pelo baixo elétrico (truque sujo!), que agora é responsabilidade de um músico convidado.

A platéia mostrou sua pouca educação, gritando e aplaudindo durante as partes instrumentais. Esta atitude foi especialmente boba se for considerada a excelente execução que os integrantes da banda alcançaram. Este tipo de interação entre banda e público é de ordem duvidosa, na minha opinião, para não dizer irritante.

Um fato notável é a quase ausência de canções da década de oitenta, o que é um direto de esquerda no queixo da concorrência, representada pelos patetas do Capital Inicial e RPM, que vivem de reerguer seu cadáver em retornos patéticos, tocando as mesmas velhas canções, como se fossem bandas de cabaré. Não conheço outra banda que toca apenas dois de seus sucessos antigos, e ainda assim consegue um auditório inteiro cantando e pulando.

Todo este sucesso, porém, é resultado de uma certa estratégia dos gaúchos. Livre do seu instrumento original, Thedy domina o palco com um gestual messiânico que lembra muito um certo cantor barbudo de Brasília, e alcança aquele público órfão da Legião. A caracterização inclui uma imagética católica fortí­ssima, que aparece nas canções e nos discursos, e tudo fica com uma cara meio forte de show do Padre Marcelo.

O preço a se pagar é a perda daquela despretensão que caracterizava o folk inglês do grupo, e acaba em alguns momentos constrangedores, como quando o vocalista dirige críticas às tendências da moda, como a égüinha Pocotó, para gáudio de sua platéia adolescente, e tristeza de quem sabe que ele está chutando uma galinha morta. Na outra vez que eles estiveram aqui, para promover Paz e Amor, foi o Tchan. Será que Thedy não entende que ele não precisa criticar estas bobagens, uma vez que a banda dele apresenta uma saudável longevidade, comprovando que existe espaço para o que chama de “boa música”?

A liberdade de gestos do vocalista tem ainda outro aspecto negativo. As músicas do Nenhum de Nós, normalmente introspectivas, ganham coreografias e chamados ao público para que cante junto, onde o espetáculo ganha contornos questionáveis de apresentação de arena. Tudo fica animadinho demais, mesmo em canções tristes; falta coerência.

Por outro lado, é admirável o acompanhamento da banda aos movimentos musicais atuais. Paz e Amor já mostrava uma conexão forte ao britpop vigente, e o disco atual tem canções que poderiam se encaixar sem dificuldade no conceito de twee, com direito a melodias fofas e sem graça.

Outro ponto positivo é a capacidade da banda de inventar novos arranjos para suas canções, e também sua ousadia em arriscar mudar a cara de seus sucessos. Ajuda o fato de todos serem músicos muito competentes, e dados à  experimentação, como podem comprovar os variados instrumentos em palco: bandolim, cítara, banjo, acordeão, entre outros. Porém, não é sempre que eles acertam; eu não gostei da desaceleração imposta a Da Janela, que era muito mais legal em seu ritmo country folk original.

Por fim, o bis. Esse não é um problema só deles, mas de boa parte das apresentações musicais. Porque diabos existe este ritual besta? A banda sai do palco, as cortinas se fecham, os instrumentos ficam, o público fica meio confuso, mas logo acha o padrão, e começam a gritar para eles voltarem. Passa um pouco de tempo, e, oh, que bom, eles voltam e tocam mais algumas canções, incluindo alguma versão prolongada de algum sucesso bombástico, daqueles do tipo que condenariam a banda a “pônei de um truque só” caso ela fosse um pouco menos sortuda. A coisa é toda combinada, ficando um ar de tediosa cumplicidade entre banda e público.

E isso é mau humor de minha parte. Toda aquela molecada se divertindo horrores, as gordinhas se esbaldando nas coreografias de jogar os braços, e este velho dinossauro sendo atropelado por uma hola de proporções de Guadalajara em 86. Fiquei pensando na Camila e em porque eu cantava aquilo de “dezessete anos” com tamanha veracidade se eu ainda estava com quatorze, mas deixei-me embalar, e, quando reparei de novo, estava saindo do teatro ao som de Bittersweet Simphony, aquela cujo riff de orquestra foi roubado do Keith Richards.

Anúncios

Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
Esse post foi publicado em Música e marcado , , , , , , , , . Guardar link permanente.

3 respostas para Nenhum de Nós no Teatro Ademir Rosa

  1. humberto mac disse:

    to passado que eles ainda existam e encham os shows. to passado que vc gosta deles.

    camila é legal! 😉

  2. Fabee Parte II disse:

    Okay… isso não foi uma crítica construtiva.

    Retiro.
    😉

  3. Fabee disse:

    Boa tua TPM…

    😛

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s