William Faulkner: Enquanto Agonizo

Eu gostaria de ser um cara altamente didático. Eu gostaria de poder explicar o que sinto ao ler Faulkner. Conheci este senhor sulista alguns anos atrás, por indicação de um francês feioso, que o admirava muito.

Li alguns romances do homem, e posso assegurar que ele não é fácil. Sei que Faulkner era um caipira de marca maior. Tão jeca que não foi receber seu Nobel de Literatura, mandando, se não me engano, sua filha como representante.

Todavia, pouco conheço dele. E não gosto de biografias. Prefiro que seus livros falem por ele. E seus livros, assim, são Faulkner. São estruturas vivas e complexas, repletas de uma vida indômita e, por diversas vezes, inatingível. Apesar disso, a literatura de Faulkner te atinge. Com a força das cavalgadas interiores de seus personagens.

A literatura de Faulkner não é linear. Seus personagens são fraturados, e expõem-se de uma forma monstruosa, dentro das sombras de alguma compreensão alheia. Compreende-se o que acontece por aproximações. Mas sempre resiste a dúvida, e dezenas de perguntas. Faulkner os faz humanos além do tolerável, sangrentamente humanos. Seres preenchidos de teimosia, idéias absurdas, comportamentos imprevisíveis, obstinação religiosa, cuja incompreensão vaza pelas páginas e nos atinge em cheio.

Enquanto Agonizo é o título de Faulkner que sempre me impressionou mais. Inicialmente, pela sonoridade das palavras ao serem recitadas. O original, As I Lay Dying, apenas reforçou a beleza, pelo mesmo motivo.

Depois, descobri que aquela era a história de uma mulher em agonia, e de sua família transportando-a para seu jazigo. E mais: contada pelos personagens em primeira pessoa, e cada um com sua própria voz, seu estilo. Em suma, eu estava apaixonado pelo romance antes mesmo de tocar sua capa.

Como sói ocorrer em minha vida, ele veio a mim. Minha última namorada, em seu esforço de ler alguns clássicos, e sabendo de minha admiração pelo bigodudo sulista, comprou-o, e começou a ler, apesar de eu já a haver alertado sobre a pedreira que seria. Tive medo que desanimasse pegando um livro difícil, e deixasse de se aventurar pelos clássicos. Bom, ela desistiu, mas continua lendo outros livros. E eu ganhei uma bela edição de Enquanto Agonizo.

Agora vivo acompanhando a bizarra jornada da família Bundren atrás da promessa de seu patriarca. Os acontecimentos são ví­vidos, e cada narrador possui uma alma inebriante e carregada de cores. A vida transborda em situações limítrofes. Os personagens moram na borda da verossimilhança, o que os deixa tão reais que sinto falta de cumprimentá-los na rua.

Ninguém pode ser irreal sendo tão teimoso quanto um personagem de Faulkner.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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5 respostas para William Faulkner: Enquanto Agonizo

  1. Pingback: William Faulkner: A Mansão « sinestesia

  2. Elisangela disse:

    Preciso da analise do livro Enquanto Agonizo de William Faulkner URGENTE!

    Obrigada

  3. humberto mac disse:

    e eu já estou apaixonado pelo livro só ao ler seu post, heart of my heart.

    olha, será que arranjo a edição em inglês? vc leu em português ou ingrishi?

  4. isa disse:

    hm..claro q fui conferir…

    essa curiosidade ainda me mata…
    ui

  5. Aninha 4ever disse:

    sinestesia=mistura de sentidos…
    engraçado, né?! 🙂
    cheiro doce….. hmmmm…. qual mais outra?! 🙂

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