Cinismo

Sei que estou ficando mais velho, e, consequentemente, mais chato, mas ainda acho válido apontar o cinismo dos meios tecnológicos.

A tecnologia sempre foi regida pela máxima de “encontrar soluções para problemas que ainda não existiam”, embora apenas uma parcela ínfima da população tenha noção de que isso ocorre. Você não precisa ter acesso a arquivos secretos de grupos paranóicos para observar que existe um engodo no admirável mundo novo que a tecnologia vende; basta um pouco de senso crítico. E uma leitura, também crítica, de Ponto de Mutação, do Capra.

Com este modesto ferramental filosófico, fica difícil não enjoar com as “necessidades supérfluas” que a mídia e as corporações nos empurram.

A Revolução Industrial continua em curso, sacralizando o supérfluo em altares diversos. As necessidades viram fetiches. A solução para a locomoção vira uma picape importada de sete lugares e motor gigantesco, quando poderia ser o transporte público decente. A solução para a comunicação vira um celular de dois visores com capacidade de milhares de cores e sonzinhos invocados, quando poderia se limitar a uma boa telefonia fixa, e telefones móveis simples e ergonômicos. A solução para fazer trabalhos de escola e comunicar-se pela internet vira um trambolho com zilhões de bits e hertz e reais, quando poderia ser um terminal esperto, e simples.

Uma face cínica do consumismo é a reciclagem, que vive no imaginário popular como um feitiço de resurreição dos materiais. O detalhe, que foge, neste caso, é que os materiais reciclados dificilmente voltam a ser utilizados em sua função original; na verdade, eles são degradados, e usados em funções inferiores. Desta forma, o material original continua a ser explorado, com todas as implicações cabíveis.

Felizmente, a mídia poupa a nós, estressados habitantes da metrópole, a preocupação com as toneladas de lixo idiota que produzimos. Assim como nossos excrementos, o lixo desaparece milagrosamente para alguma dimensão paralela. Então você não precisa imaginando o destino daquela papelada toda que embala o seu jantar, ou daquelas noventa e sete garrafinhas de cerveja que você consumiu com seus amigos naquela festinha. Um tanto do material vai para Paulo Lopes, e Paulo Lopes, ora, onde fica Paulo Lopes? Deve ser tão longe que nem deve morar gente lá! E o resto é reciclado pela Fada Recicladora, que mora em algum lugar tão etéreo quanto a Lapônia.

E isso tem melhorado cada vez mais, veja você, os cartazes da TIM, ilustrados por um lindo mico-leão, nos contam que foram recolhidas, em um esforço ambiental maravilhoso, milhares de baterias de celulares! Diabos me carreguem se esse não é o mais lindo dos mundos!!! Imaginem, a TIM resolve parcialmente o problema que ela mesma criou! Que pessoas doces e preocupadas!

Reconheçamos nosso consumismo, e exijamos que as empresas façam mais do que o mínimo necessário; isso é só o começo.

Anúncios

Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
Esse post foi publicado em Filosofia de Boteco, Mau Humor e marcado , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para Cinismo

  1. Anita disse:

    É beeeem por aí, mesmo!

    Mas é complicado espremermos essa idéia na cabeça norótica dos caras, né…
    Tu tens que convir que eles nuuunca aceitaram o fato de que eeeles construiram essa imundice de selva tecnológica.

    Mas, devemos tentar, né??? Não custa nada… só algumas dores de cabeça (coisinha pouca.).

    Abração,

    *****
    Anita
    http://anamachado.blig.ig.com.br
    http://mufinhando.blig.ig.com.br

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s