Dois Filmes, Tristeza e Prisão.

Há alguns dias em a Tristeza se mostra clara demais; ela sai para caminhar, desfilar em nossas abstrações, como se fosse ela sozinha a governar um carro no fim do mundo.

Chegar ao CIC pareceu normal como ler o mangá de Musashi acompanhado de um chopp escuro após passar pela cerca do estacionamento. Nem mesmo reparei demais no DVD que rolava na tevê, Cure executando o Pornography inteiro. Soubesse eu que essa era uma senha. Da mesma forma, Durval deveria ter notado que a nova empregada não poderia ser tão prendada, e muito menos deliciosa a ponto de necessitar ser personificada por Letícia Sabatella.

Durval não poderia saber que iria estar dentro de uma peça surreal em um quarto com um defunto, um cavalo, e paredes alegremente pintadas de sangue. Gelsomina também não quer ver nada; ela pode prever a chuva, mas não quer enxergar o caminho trágico por onde se envereda.

Eu também ensaiei enganos, diante do estacionamento. Olhei para os carros, e os imaginei como aves em um viveiro, em cujas grades colocaríamos comida. Não funcionou. Criei uma creche imaginária, onde seres mecânicos sobre rodas passariam o tempo em que seus pais estivessem fora. Imaginei uma tristeza própria deste espaço, como quando um pai se atrasasse e o filho tivesse de esperar. Mas foi tudo em vão, pois aquelas cercas vão devastando a democracia e esfriando os espaços públicos, até que só restem olhares desconfiados, tristes e saudosos dos tempos em que tudo era aberto.

E mudaremos para o shopping. Vamos para a insípida praça de alimentação, e vamos continuar fingindo.

Um de nós disparará por acidente, e entrará em choque, fingirá, de vez, que não existe um mundo real, e os outros se desesperarão. Apenas por não saber se estão desesperados por verem um dos seus loucos, ou porque não lhes foi dada benção de serem eles próprios os loucos.

Virão os equilibristas, loucos, e dirão as palavras erradas, a quais daremos ainda outro significado equívoco, e nos afundaremos em nossa estrada, envoltos em nossa ruína. Nos descobriremos loucos, ou sãos inúteis em um mundo de loucos. Se estivermos de fora, não saberemos o que teria sido pior.

Existe outro aspecto, é claro, não precisa ser tristeza, pode ser a prisão. A das grades do CIC, a irênica prisão de Durval em sua fortaleza recheada de acetato na agressiva São Paulo, a perseguição por Gelsomina de um norte doloroso, e… não fará diferença na tragédia patética.

.:.

Posso não ter sido claro. Durval Discos oscila bruscamente de um estado de euforia instável a uma tragédia a passos crescentes e inevitáveis a partir de seus créditos espertos. A Estrada é triste como apenas um filme italiano pode ser, e possui uma fotografia simplesmente sublime.

Eu voltei para casa, a tempo de ver a névoa envolvendo ambulâncias e carros da polícia, orbitando um carro que entrou sobre um canteiro para derrubar um poste de iluminação.

O guarda me perguntou aonde eu ia; demorei para dar a resposta automática.

Anúncios

Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
Esse post foi publicado em Cinema Europeu, Cinema Mercosul, Filosofia de Boteco, On The Road e marcado , , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Dois Filmes, Tristeza e Prisão.

  1. Pingback: Tim Burton: Alice « sinestesia

  2. humberto mac disse:

    gilvas of my heart,

    ai, esse filme… ainda me pego pensando nela…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s