1989

1989. Gorbachev telefona para Reagan. Um acidente em uma divisão do generalato em Kiev ocorre, e 37 mísseis seguem, inexoravelmente, para a costa oeste dos Estados Unidos. Reagan silencia sua surpresa, puxando uma fala enferrujada de caubói. Gorbachev se desculpa, diz que entende a situação, que foi um acidente que a morte rume rápida para as casas de meninos e meninas rechonchudos que nada sabem do que os acomete nessa hora em um ladainha bruscamente interrompida por uma fala áspera e abafada de Reagan:

“É tarde demais.”

O telefone é desligado. Gorbachev senta-se pensativo diante de sua mesa:

“Existe incenso aceso em alguma sala do Kremlin.”

E aguarda em silêncio o baque das ogivas.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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4 respostas para 1989

  1. Ian disse:

    E aí estão tempos nos quais eu gostaria de ter os meus 20 e poucos anos (1982, 1983, 1984, 1986, 1987. 89 nem digo tanto o mesmo, porque tudo já tava no final). No mais, seria engraçado tu compondo uma música chamada “1989” e cantando com uma voz tipo a do Andrew Eldritch, enquanto contas sobre tua adolescência em Canoinhas.

  2. mafra disse:

    tenho uma relação muito pessoal com o ano de 1989 e foi isso que me trouxe aqui. o que encontrei não parece tanto com o 89 que tenho na memória: collor, lula, sarney, inflação, pet shop boys, modern talking, cazuza, muro de berlin, bebeto, copa américa, ayrton senna, jaspion… gorbachev e reagan são figuras distantes daquilo. parecem tão velhas, tão anteriores às outras citadas. mas não, estão lá, no mesmo “ano da virada” – o inicio da queda do sonho socialista e da vitória neo liberal. ou seja, o fim da guerra fria e da possibilidade de um conflito nuclear.
    é justamente este outro fim possível, diferente do real, cheio de fragmentos e idas e vindas (que se desdobrariam nos anos seguintes – no centro e nas periferias do mundo) que teu texto desenha… como seria se alguém apertasse um “botão errado”?!? era o que pensávamos. hoje nem faz mais sentido, mas essa obsolescência (é assim que escreve) tem muita beleza.

    bacanão, gilvas (como boa parte do que escreves, claro).

    • gilvas disse:

      trata-se de uma encruzilhada, um ponto focal onde toda a realidade realmente poderia ter tomado, de forma rápida e definitiva, outro caminho.

      gosto de 1989 porque ele foi, para mim, provavelmente o que 1969 foi para o iggy pop, 1979 para o billy corgan e 1959 para o andrew eldritch. uma mistura destes anos, na verdade. se eu fosse realmente alguém destinado à relevância, levantava agora daqui, pegava um violão, e compunha uma baita duma canção chamada 1989.

  3. humberto mac disse:

    uau, que medo!

    sabe aquele filme, acho que é o day after? nossa, como me arrepiada aquilo. (mas sempre torci para os soviéticos! hoho)

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