Apontamentos

pochetarteDai desses calhei de encontrar este simpático livrinho na casa de uma amiga, com um título mais simpático ainda: “Arte de Poucos ou Direito à Beleza”. Meu detector de possibilidades wilderianas se ativou, e fui raptando o singelo impresso, ao que minha amiga reagiu com um olhar de reprovação maternal, reforçado com palavras que reduziam o autor, Michel Pochet, a uma decepção.

Teimei, e temi, pelas primeiras dezenas de folhas, que ela estivesse dolorosamente certa. Pochet adora falar de si, e de suas experiências, colocando-se no centro de um mundo de visões estéticas um tanto absolutas. O que é bem coerente com seu perfil teológico, diga-se de passagem.

Eu já ia me decidindo a arremessar o livro às chamas, mas decidi experimentar alguma parte mais à frente, e, surpresa, encontrei trechos muito bons, dos quais transcreverei um pouco aqui.

“(…) Tremo ao pensar nos bilhões de fotos de amadores, todas bem bonitinhas, limpas, muito coloridas e uma mais insignificante do que a outra, amontoadas em gavetas e caixas de sapatos. Às vezes, estão classificadas, dotadas de legendas humorísticas e cuidadosamente colocadas em páginas auto adesivas de um álbum elegante; conservadas como preciosidades até o próximo acontecimento, sem nunca serem vistas uma segunda vez, porque quanto mais nos enchemos de lembranças, menos nos preocupamos com elas: a saudade, apesar daquilo que se diz, continua aquilo que era.” (Um Olhar, página 53)

“(…) A alegria, contrariamente ao prazer e ao gozo, sempre exige uma ascese. Não existe alegria sem esforço. É uma verdade tão indiscutível quanto fora de moda. Não é a nossa sociedade da abundância, do consumo e dos objetos que fará a propaganda de tal ideia. Ao favorecer sempre o mais fácil, o que se obtém sem esforço, o descartável, ao privilegiar o gozo e o prazer, a sociedade nos priva, a priori, da alegria.

Reconhecemos que não fomos educados em função da alegria. A própria palavra anda esquecida ou é mal-empregada como sinônimo de gozo ou de prazer. Mas será preciso que, um dia, se redescubra a alegria, as alegrias da vida. É uma triste involução e um desconcertante empobrecimento – uma verdadeira automutilação do nosso ser humano – privar-se e privar os outros daquilo que torna o homem mais homem e faz sua verdadeira felicidade.” (E a Alegria Depois?, página 61)

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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