Ganhar ou Perder

Joguei duas vezes na loteria.

Na primeira, eu era um molecote de uns oito anos. Olhei aqueles números, e minhas incipientes habilidades probabilísticas garantiam-me que ganhar naquele jogo era um dos ápices da trivialidade no planetinha azul.

Ledo engano. Na conferência dos resultados, nenhum acerto. Definitivamente, devia haver algum detalhe que eu esquecera. E, obviamente, eu não saberia definir qual.

Anos depois, nas minhas aulas com o Masanao, achei que algo poderia mudar, mas minhas referências, lamentavelmente, continuava sendo Oswald de Souza e sua zebra desmilingüida no Fantástico.

A segunda vez foi no trampo. O povo tinha feito um bolão, e eu não queria participar. Um dos colegas, altamente supersticioso, invocou que eles não ganhariam se não fossem todos os funcionários a apostar. Pagou-me a aposta, e exigiu que os números viessem do meu punho.

Acertamos três números, e ganhamos o equivalente a quase três vezes o valor da aposta, que foi investido em novas apostas. Eu deveria ter gastado em cerveja, pois não acertamos nada.

Não entendo porque as pessoas apostam em loteria. Fazendo uma metáfora, podemos considerar o bolso de um pobre como uma bacia, bem rasa, na qual mantém-se as poucas gotas de rendimentos, e, porventura, algo se acumula, em modesta quantidade.

Então o infeliz ganha na loteria, o que equivale a uma hecatombe pluvial arremessada por algum deus sofrendo de gastrite sobre a tal bacia do tal pobre. A água desce, cai na bacia, não fica, e ainda leva o pouco que estava guardado lá.

Na verdade, penso que a loteria é a típica negação da realidade que certas escolas da Psicologia pregam. O xiru não aceita que vai se ferrar pelo resto da eternidade, e fica se enganando semanalmente, engordando a vaca do governo. É a tal da Esperança, significativamente semelhante ao Desespero, no final das contas.

Se já acho ridículo apostar em loterias, imaginem o que acontece quando a pessoa aposta contra si mesma! É o caso dos seguros de veículos. Se seguro fosse bom, a seguradora não teria lucros. É bastante óbvio que a relação de sinistros e ocorrências nulas pende indecorosamente para os primeiros. E o cara só vai “ganhar” a bolada se destroçar sua caranga, correndo ainda o risco de danos físicos decorrentes do processo.

Diabos, este é um mundo bem louco.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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4 respostas para Ganhar ou Perder

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  3. isa disse:

    haha

    essa sou obrigada a comentar né!

    não que eu goste de apostar contra mim, e tão pouco acredite que sou uma barbeira típica (apesar das evidências caminharem neste sentido..hihi), mas …….
    pobre de mim se não tivesse seguro!!!!
    uma perda total e mais duas batidas em menos de 3 meses….é de falir qualquer um!

    né?!?!

  4. humberto mac disse:

    eu posso dizer que comigo a seguradora não teve lucro. roubaram meu carro tres dias antes de acabar a validade do seguro. ri muito! e ainda tive lucro.

    com meu segundo carro, não tive a sorte de alguém roubá-lo… unhé!

    engraçado, gilvas, não tenho coragem de entar numa loteria e apostar. Mas vejo minha mae apostando e não desprovo. quem sabe não rola uma hecatombe????

    🙂

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