Sobre estar escuro e bandas de lá.

A sensação de voltar a escrever depois destes dois dias amarrado à inevitabilidade da chegada da noite e sua conseqüente escuridão trazem uma perspectiva diferente às palavra. Não muito diferente, apenas diferente, sutilmente diferente.

Praticamente um cenário do filme do Batman!

Eu não posso deixar de colocar algumas palavras sobre os eventos que nos levaram a tal condição. O acidente, até onde sabemos, foi uma patuscada de dimensões apropriadas aos Três Patetas; não sei quantos deles havia embaixo da ponte naquele momento.

Surgiram hipóteses mirabolantes para que tentar escapar ao estigma de povo bagunçado.

Agentes islâmicos poderiam estar tentando sabotar nossa pacata Ilha, fato que só teria paralelo provocativo nas invasões espanholas de séculos atrás. Teriam chegado tarde, os tais guerrilheiros de turbante, pois a horda de argentinos que nos assola já é mais do que suficiente como amostra de terror.

Outros lembraram das provas da WCT, que trouxe os mais cotados praticantes do surfe a Floripa. Os parafinados mancebos poderiam estar ressentidos da falta de atenção, e teriam planejado um atentado que permitisse aos atarefados anfitriões assistir às provas soporíferas do campeonato. Antes que alguém acuse o cidadão de ter uma imaginação absurda, ele retruca utilizando como argumento a cumplicidade dos rapazes, que saltaram da ponte após a explosão do famigerado “liquinho”, com o mar. Testemunhas teriam comentado sobre as manobras radicais após o salto, e alguma mente imaginativa ainda daria pistas sobre um possível hang loose, apesar da distância improvável.

Elucubrações à parte, o fato é que o povão soltou foguetes no retorno da energia, e continuamos este povo pacato de sempre, para não dizer bundão mesmo. Fôssemos argentinos, e panelas haveriam de voar sobre a careca embigodada de Luiz Henrique após as primeiras gotas de banho frio à luz de velas.

Todavia, as rusgas vieram apenas da nossa fanha prefeita, que jurou, de pés juntos, não usar o fato como “palanque eleitoral”. E por falar nisso, eu toparia uma boa troca: ficaria uma semana sem energia caso a Ângela fosse catapultada de seu gabinete. Meus horizontes de banho frio poderiam se estender com o arremesso estratosférico do maridão Esperidião. E nem preciso dizer que viro praticamente um Gandhi se a família Bornhausen for varrida da face da Terra, a começar pelo Chucky, patriarca e líder da alcatéia.

Uma girafa?

Tendo a energia voltado, pus-me a escutar Disintegration, disco que a banda inglesa The Cure lançou em oitenta e nove. Gravado sob auspícios desfavoráveis, que culminaram na traumática ejeção do fundador Laurence Tolhurst, Disintegration é um disco deveras curioso. Todas as faixas foram gravadas ao vivo, sendo apenas os vocais colocados posteriormente na mixagem. As faixas do disco têm essa cara, e são perfeitas para se ouvir em um sábado à tarde, com chuva na janela. Indagado sobre o clima tristonho do disco, o aspirante a urso fofo com penteado flamboyant Bob declarou, heroicamente, que “a tristeza era um sentimento, e que era melhor gravar com o sentimento de tristeza do que com nenhum sentimento.

E tal é o clima: o tédio terminal em Closedown, as divagações nebulosas em Plainsong, as lembranças revolvidas em Pictures of You, a despedida infinita da chuvosa The Same Deep Water As You, a rejeição declarada de Disintegration, e o acordeão de procissão na canção sem título que fecha o álbum. Existem canções em outra chave, como Lovesong e Fascination Street, mas elas mantêm uma identidade sob a redoma uniforme do disco.

Tive Disintegration em três versões. A primeira foi em uma fitinha Sony que eu gravei a partir de um vinil do meu amigo George. Depois, gravei as duas canções extra do CD em outra fitinha Sony, junto com alguns lados B, em minha fase mais doente por Cure. Nesta época, minha irmã mais velha apareceu em casa com um vinil, quase novo, de Disintegration, que um amigo dela tinha, e não gostava. Bom filisteu ele.

Bastante tempo depois, comprei minha versão em CD. Encomendei na Musak, e paguei caro. Recebi o disco com todo o carinho, quando chegou. Era um dos encartes mais fedorentos que já tive em mãos, e uma de minhas primeiras experiências sinestésicas duradouras.

Hoje, ouvindo Homesick, descobri que os fungos malvados devoraram este meu xodó digital. Buracos negros insinuam-se onde deveria haver apenas uma superfície prateada, e ruídos destroem os acordes finais da música. Nem quis saber como está Untitled, por medo de ver a leveza bucólica dela se perder em tropeços deselegantes.

É a terceira vítima digital dos fungos malvados aqui em casa. Eles estavam acostumados com uma dieta de fitas VHS e outras ninharias, mas não era o suficiente, e já foram Manic Street Preachers, Fields of The Nephilim, e agora Cure… Seguinte, alguém tem esses CDs, e se dignaria a emprestá-los para que eu faça uma cópia? A pessoa bondosa poderia esperar minha gratidão eterna por tal favor. Alguém se habilita?

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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