Auto-ajuda

Meu pai pediu para eu dar uma palhinha, e falar algo sobre livros de auto ajuda, como se fosse uma entrevista para um trabalho na escolinha dele. Como eu sou extremamente pragmático, resolvi escrever direto aqui.

Minha experiência com livros de auto ajuda não é muito ampla, limitando-se a leituras em salas de espera de consultórios, casas de amigos (geralmente amigas); em suma, sou um consumidor esporádico da tal literatura de auto-ajuda.

Meu í­mpeto para ler estes livros foi a curiosidade natural que sinto pelas folhas impressas. Concordo com Wilde quando ele fala sobre o absurdo de uma época que classifica sua literatura com base nos livros que NÃO devem ser lidos; leio tudo o que posso. E confesso que adoro aqueles livros de fotos de cachorros com frases edificantes. Considero que o senso crítico precisa ser desafiado constantemente com literatura duvidosa, e também com filosofia e arte duvidosas; manter o cérebro em uma redoma, à salvo de pretensas contaminações, é limitante.

Os conselhos destes livros costumam ser bons e úteis, mas não escapam do senso comum, e quase nunca são mais do que… bem, conselhos! E sabemos que as pessoas não são muito de seguir conselhos. Elas abrem o livro, acham tudo muito bonito, tudo muito legal, ficam animadas, pensam em mudar o mundo e tudo mais; fecham o livro, e logo tudo se esvai, voltando ao cotidiano e seus erros comuns. Isto é previsível, uma vez que a auto-ajuda se baseia na diluição de conceitos derivados de filosofia, religião e linhas de pensamento que o homem moderno não tem paciência de seguir; uma espécie de fast food, evitando aqueles compromissos desagradáveis, ou questionamentos mais profundos.

Anúncios

Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
Esse post foi publicado em Filosofia de Boteco e marcado , , . Guardar link permanente.

6 respostas para Auto-ajuda

  1. turnes disse:

    dia desses, na sala de espera da massagem, folheei “Seu último livro de autoajuda”..adorei, quase pedi emprestado..é uma espécie de anti ajuda, do tipo: contenha sua raiva: ninguém quer uma pessoa raivosinha por perto….ou: seja um workaholic, trabalhar muito faz você ganhar dinheiro e dinheiro é bom demais.

    • gilvas disse:

      estou ansioso pelo dia em que roliúde vai inverter a lógica de filmes como doce novembro: o cara é um hippie de coração mole, ovo-lacto-vegetariano e gordinho que ajuda velhinhas a atravessar a rua e coordena grupos de vendedoras de biscoitos de porta em porta e conhece esta hippie que é mais hippie do que ele, fica de saco cheio e decide ser um baita de um filho-da-puta publicitário, enche o rabo de dinheiro e come todas as secretárias. vão chamar o charlie sheen para estrelar, eu sei.

  2. humberto mac disse:

    desceu o cacete! hahaha

    morri de rir imaginando vc ver aqueles livros com cachorrinhos, tipo “mamãe gosta muito de vc” com um filhotinho bem fofo na foto. Alías, é isso. As pessoas vêem esses livros. Não estão lendo nada.

    Tem uma cena genial e maravilhosa sobre este assunto num filem chamado As invasões bárbaras, que está em cartaz por aqui. Se entar aí, é uma sugestão, acho que vc ia gostar de tudo.

    O kafka falava um negócio do tipo que os livros devem servir para desconstruir o leitor para que, assim, ele seja obrigado a se reconstruir novamente depois. Um livro que deixa vc felizinho, tipo esses de auto-ajuda, acho que seriam um crime para ele. hehe.

    “felizinho”. Este é um grande problema.

    por outro lado, capitão, acho que os livros de auto-ajuda têm uma serventia para quem não consegue ainda ler coisas muito elabarodas (falando grosseiramente). Sabe aquela história que drogas leves levam às drogas mais pesadas?

  3. helen disse:

    Eu particularmente não sou muito a favor destes livros. Sei que as intenções são as melhores, mas não são suficientes o bastante pra solucionar( ou amenizar, sei lá eu) problemas que muitas vezes vão além destes conselhos baseados( quase sempre) na própria experiência, sem muito fundamento. Acho que até a Luciana Gimenez( “ser pensante”) poderia escrever um livro de auto-ajuda: A maneira mais fácil de criar um filho. E o pior é que venderia…
    Acho melhor eu parar por aqui, isso vai longe…
    Inté. Um abraço da helen.

  4. Lalai disse:

    Tenha cuidado com as pessoas que te dão conselhos,
    Mas seja paciente com elas.
    Conselho é uma forma de nostalgia.
    Dar conselhos é uma forma de resgatar o passado da lata de lixo, limpa-lo,
    E esconder as partes feias e recicla-lo por um preço maior do que realmente vale.
    (Mary Theresa Schmich – Texto: Sunscreem)

    No final da adolescência enquanto eu tentava descobrir que eu era, eu saí por aí lendo tudo que aparecia na frente e claro, auto-ajuda não faltou no cardápio. Li um bocado de Joseph Campbell e lembro até o dia que fiz um exercício mental que ele ensinava para tentar aliviar uma cólica maldita que estava me matando. Well, neste dia a certeza que tive foi a do poder da mente e esse é o clichezão que mais pontua textos de auto-ajuda. Ou seja, li para reforçar o que o meu pai já tinha me ensinado, coloquei em prática e deu certo. Fiquei anos longe da auto-ajuda, até que meu pai me carregou para um curso (tem até no meu blog a descrição de tal experiência) e quando cheguei lá vi que era uma cilada. É, era um curso de auto-ajuda, fui em duas aulas, achei o cara um baita de um marketeiro pessoal de primeira e na terceira aula eu já não estava mais presente.

    Enfim… hoje auto-ajuda para mim nao funciona mais, pois encontro minhas próprias forças dentro de mim, mas sei que ainda faz efeito para zilhões de personas por aí! (nossa, isso virou um post! rs)

    bitoca
    Lalai

  5. Conano disse:

    É por isso que eu ando assistindo a novela!

    Faz bem…

    =***

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s