Revistas que Voam

As revistas que circulam nos aviões comerciais, como a Ícaro, compõem o retrato de uma classe bastante heterogênea, embora restrita a um ambiente específico, o que torna-a bastante atraente para uma análise.

Todavia, longe de mim ser arrogante o suficiente para uma análise ampla; evito-a, ou seria forçado a cursar sociologia, como nosso último presidente, o de grandes dentes.

Serei modesto, e ficarei pelas revistas. Afinal, foi uma delas, nas horas silenciosas do apagão florianopolitano, que me inspirou a escrever as bobagens que lerás logo a seguir.

Era uma edição especial, falando sobre internet e sobre as benesses que a tecnologia nos trará em breve. A ironia de ler aquilo tudo durante uma falha vergonhosa do sistema elétrico deliciou-me deveras.

Até certo ponto, eu ia lendo neste espírito mordaz leve, pelo simples prazer de apreciar o estilo novo-rico da revistinha. A pesquisa de público-alvo, sem dúvida, é bem feita!

E a execução, então? Primorosa! Desde a foto bonita na capa até as belas reportagens turísticas, passando pelas crônicas inofensivas de nomes relativamente famosos, tudo tem aquela aparência de limpeza, aquela ausência de gosto ou cheiro, que é, enfim, o padrão da aviação, seja nos funcionários, seja na comida.

Mas voltemos à tecnologia! Dizia a reportagem que as casas do futuro, este não tão distante, terão um sistema que permitirá ao proprietário visualizar quem bate à porta atravás do sistema nababesco de vídeo e áudio. Depois de verificar, através de diversos expedientes, a identidade do visitante, o proprietário poderá abrir as portas de sua fortaleza moderna pelo controle remoto. Luzes se acenderão, guiando o visitante através da casa até o cômodo onde se encontra o proprietário, e este último não precisará nem se levantar do lugar! Diabos me mordam se isso não é uma invenção genial!!!

Contudo, penso na evolução deste conceito. Já que é tão chato assim levantar-se para receber visitas, porque devemos recebê-las? Afinal, até mesmo as compras poderão ser feitas pela internet; não precisaremos ficar em contato com outros seres humanos na rua, e nem com aquela gentinha pobre que trabalha no supermercado. Não é o melhor dos mundos? Porque se relacionar com outras pessoas? Porque descobrir as diferenças e as desigualdades do mundo? Não é tão melhor pensar que somos autosuficientes, e que não necessitamos de nada além de nosso lendário egocentrismo para vivermos?

Viva a tecnologia, e viva todo o Prozac e Valium e Aropax que se farão necessários para tratar os solitários modernos em suas catacumbas protegidas do mundo cruel.

Lendo este tipo de reportagem, entendo porque tanta gente tem medo de avião. Com razão.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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