Na Fronteira do Quase.

Encontrei Quase Memória, de Carlos Heitor Cony, em um bazar da Sociedade Animal. Ele estava lá, com sua encadernação moderna, entre alguns livros de misticismo oportunista, provavelmente chatos para terem sido atirados fora com toda aquela facilidade.

Comecei a leitura dele quando voltei a andar de ônibus, coisa de um mês atrás. É um livro simpático, tem aquela cara do Cony, aquele jeitão apaixonado pelo Rio, que nós, do Sul, nunca entenderemos.

A linha-mestra do escrito é um pacote que Cony recebe em um hotel. Deste embrulho enigmático partem as indagações, que dão ao escritor o impulso de envolver em sua bem trabalhada prosa os também prosaicos acontecimentos da sua vida junto a seu pai.

No esquema geral concebido, existe a quase ficção, que é o tal embrulho intrigante, e existem as memórias, histórias onde inevitavelmente surgirá o pai, e suas aventuras mirabolantes, embora suburbanas.

Todavia, a grande habilidade de Cony não consegue esconder a fragilidade deste livro. Falta a ele aquele ímpeto da escrita, que impele as simples folhas amontoadas em um Romance.

Resta, assim, um calhamaço de histórias peculiares e bem contadas, mas que ficaria melhor nas páginas de um jornal, nos pixels de uma página na internet. Dispensando um eufemismo doloroso para um monumento da literatura brasileira, dir-se-ia “Um desperdício, no final das contas”. O Quase é um lugar deprimente.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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