Pontos

Terminei, na sexta, a leitura de “Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem”. Apesar do título quilométrico sugerir alguma tese acadêmica pouco palatável, o que Marshall McLuhan, um dos queridinhos da contracultura, apresenta um texto de fácil compreensão.

Os efeitos do tempo não foram benevolentes com o texto, e penso que não poderia ser de outra forma, uma vez que a proposta do autor é ressaltar o fato de que os meios são cruciais na significação do que pretendem passar. Assim, os meios de comunicação vão apenas até a era da televisão, e o computador ainda é visto como um autômato cíclico, sem as possibilidades imensas da internet. Entretanto, a extrapolação para as tecnologias pode ser operada com certa facilidade, principalmente se pudermos evitar o estranhamento inicial das coisas datadas.

McLuhan exercita um atualismo muito arriscado, mas necessário quando se trata de retratar os meios. Ele é redundante em algumas partes do livro, e os temas repetem-se, muitas vezes com efeitos desanimadores. Apesar disso, as sacadas dele valem a pena.

Numa delas, McLuhan descreve como a fotografia destruiu o turismo. Segundo ele, as pessoas, desde a popularização da fotografia, apenas visitam os lugares para confirmar as visões que tiveram através das fotografias no folheto da agência de viagem. Chegando ao local turístico, eles tiram mais algumas fotografias, como troféus, e seguem sem ter a possibilidade de realmente experienciar sua presença naquele local. É uma extrapolação, de péssimo gosto, da “vida imitando a arte”, o conceito de Wilde sobre a arte que nos ensina a apreciar os detalhes do mundo.

E existem muitas outras boas sacadas, que levam-me a recomendar fortemente a leitura deste livro àqueles que procuram entender a malha hipnótica ao nosso redor.

Um ponto em especial do livro veio à minha mente ontem. McLuhan ressalta a diferença entre os meios cinema e televisão. A televisão é pontilhada, pouco definida, resultando em que as imagens dela não são imagens reais, mas apenas interpretações em mosaico, cheias de pontos abertos a serem preenchidos por interpolações de nosso cérebro. Exemplo: ontem assisti Gangues de Nova Iorque pela terceira vez, sendo que as duas primeiras foram no cinema, e concluí que aquele não havia sido o filme que eu havia visto no cinema. Não obstante o impacto da tela grande, e do sistema de som possante, além da presença das demais pessoas no ambiente, existia ainda uma diferença, e concluí que ela é exatamente o efeito de pontilhamento da tela de tevê. Nesta condição de baixa definição, sua interpretação fica mais liberta da intenção do diretor, e mais apta a acrescentar conceitos próprios nos vazios das linhas da tela.

Vi Os Normais no sábado. Incomodou-me um tanto a montagem plástica demais, limpinha, como convém ao estilo Globo de cinema. Mas, neste caso, o diretor foi mais longe. Uma pequena olhada na ficha do indivíduo, conhecido por filmes da Angélica e dos Trapalhões, explicou tudo o que eu precisava entender.

Bobagens à parte, Os Normais demonstram também a dificuldade de transposição do meio televisivo para o do cinema. Neste caso específico, foram descartados os cortes rápidos, os flashbacks e a interação direta com o espectador, tirando bastante da espontaneidade e despretensão que torna uma sitcom interessante. Isto torna mais saliente o exagero nos palavrões que dá notoriedade à estagiária de escrevinhação Fernanda Young. Fazendo um contraponto, em Amarelo Manga os palavrões se acotovelavam nas falas do elenco, mas contavam com a rudeza dos personagens, e faziam coro com as imagens desoladoras. Em Os Normais, os desbocamento é apenas um adereço na roupagem da classe média fútil retratada.

Outro detalhe irritante do seriado é o esquematismo das participações: um casal de fora surge, e conflitos são gerados na interação desse com os personagens Vani e Rui. No filme, a única curiosidade é a inversão temporal e causal; Rui e Vani são o casal resultante da interferência nos casais originais complementados por Marisa Orth e Evandro Mesquita, que continuam sendo os coringas de sempre, entrando como arroz e salada, perfeitos para ficar com algum chutado(a) em fim de novela. Os dois são cruciais na teledramaturgia nacional, verdadeiros chapolins colorados, chamados pelos diretores mais famosos quando estes precisam tapar algum buraco em seus roteiros rotos.

(Diabos, “roteiros rotos” parece coisa de poeta modernista! Chibata já!)

Do jeito que eu falo, parece que Os Normais é um puta filme ruim, correto? E é mesmo!

Mas ninguém pode te impedir de se divertir com filmes ruim, pode?

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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Uma resposta para Pontos

  1. lenore disse:

    Ninguém pode te impedir de divertir-se com eles porque eles são feitos pra isso, oras!!!

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