Ficção No. 4

Acordou com um latido súbito, cuja origem não poderia definir. A penumbra era um reflexo da temperatura ambiente. O marido ressonava, pêlos sob um pijama que ela comprara.

Libertou-se dos lençóis e das cobertas com detalhado desvelo. Calçou cada pantufa de bichinho como se desarmasse uma bomba de odor insuportável. Pôs-se em pé, procurando as paredes com tato relutante.

O corredor prolongou-se vazio no lar que era só ela e ele, o marido. Tateou estas novas paredes com a certeza de que mais este silêncio seria inútil. Quando voltasse, aquelas mãos procurariam seu corpo, que reagiria tentando reduzir-se, voltar a célula primeva.

Seus passos relaxaram-se com a certeza de que o inevitável a alcançava em passadas ferozes. Reteu o choro, segurando o amargo em uma curva da garganta. Passou a porta do banheiro com a cabeça baixa, procurando os cabelos com as mãos.

A mão direita passou por cima do interruptor com a mínima força necessária, e fez-se luz de paredes e teto. Na seqüência do movimento, sentou-se sobre a tampa do vaso sanitário, as lágrimas pingando passivas sobre o pijama curto.

Fitou os azulejos logo a frente de seus olhos com a lentidão que sentia necessária para aguarda-lo. Estava frio, mas ela não tremia, não havia pensado nisso, estava imune, embora seu corpo negasse, e a fizesse tremer.

Um telefone tocou em algum apartamento distante e abstrato, e ela preparou-se. E nada aconteceu.

Passou a pensar em revistas que poderia ler ali. Quis saber o que acontecia quando chovia nas cidades desérticas do Chile, se as pessoas corriam pelas ruas agradecendo ou se apenas se ressentiam de não haverem incluído telhados naquelas casas tão desejadas em suas vidinhas, pelo menos para ela,  irreais. Lembrou do dia do casamento, e de como não entendia aquele sorriso dele. E fazia tanto tempo.

E fez-se tempo pela madrugada, a ponto de ela sentir frio.

Apenas quando já era tempo demais para ela, os passos começaram, uniformes, inalteráveis. Ela não levantou a cabeça quando ele postou-se diante dela, olhar indagante e confuso.

Em um simples ato, vomitou sobre os pés dele.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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2 respostas para Ficção No. 4

  1. e por que todo mundo tem um cachorro?

  2. nem precisa dizer, ela estava grávida…
    tadinha.

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