Ficção No. 5

Elesbão conheceu Glorinha de forma prosaica. Ela estava na fila para pagar por seu pão suburbano, dois lugares à frente de nosso protagonista, a qual não cabem maiores adjetivos, uma vez que ele se demonstra e se apresenta por suas ações.

Moedas caíram, e poderia ter sido apenas uma, e o resultado seria o mesmo em qualquer ser humano, e Elesbão não seria diferente, não naquela manhã de domingo, quando Glorinha abaixou-se para juntar suas moedas rebeldes, e tornou seu olhar ao ouvir o suspiro de impaciência de um Elesbão, que sentiu, tão logo percebeu aqueles olhos, um descompasso em seu coração.

O instante prolongou-se pelo quanto poderia uma imaginação sustá-lo, e, antes mesmo de Glorinha pagar seus pães, Elesbão havia se decidido a contar as batidas de seu próprio coração. Nosso protagonista havia lido, certa feita, que iogues poderiam resistir a forças da Natureza e castigos dolorosos, sem falar que os danados dos indianos ainda podiam controlar seu coração ao ponto de pará-lo!

Ele, por sua modesta formação espiritual, limitaria-se a contar as passadas daquele coração tão desgovernado.

Glorinha saiu sem maior pressa, desconfiando de que algo havia se movido por sua presença, e Elesbão já ia às centenas, atento aos passos e descompassos de sua bomba.

Ele deixou de falar, e todos sabiam que ele amava intensamente aquela que o havia aprisionado pela beleza daquele único instante. Ele passava, absorto em suas casas avançadas, números prodigiosos.

Demorou pouco para Glorinha confirmar sua conquista, e, moça bonita que era, passou em consulta às meninas do bairro, em busca de uma deliberação que não conseguiria sozinha. Não ajudava-a Elesbão, cuja aparência não era assim tão maior que a beleza de seu nome, mas as meninas nunca haviam visto uma criatura assim siderada de paixão caminhar por aquelas calçadas, e diziam que era lindo, enquanto xingavam seus respectivos garotos triviais a bordo de seus gordinis e corcéis paternos.

Dia de festa na igreja, Glorinha inventa um plano mirabolante para cercar seu Elesbão, tão tímido quanto apaixonado. Perto das saídas, onde convergiam algumas cercas, era por ali que teria de passar. E passou, e junto seu olhar sobre Glorinha, parada, falsa presa de uma pretensa fera. Elesbão tinha realmente o olhar apaixonado, ela pensou, e tudo caminhava bem até que Elesbão não parou diante dela sobre seus joelhos, mas antes caminhou depois de lançar um olhar mesmerizado sobre o espaço além da menina, em algum lugar abstrato onde morava a musa que nascia dela para os sonhos de Elesbão.

As meninas do bairro todo souberam, e Glorinha podia ser vista chorando na primeira semana. Elesbão mudou-se com a família um tempo depois, para seu irmão estudar na capital. Dizem que mudou de nome, e agora é ator de um papel só, daqueles de novela.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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Uma resposta para Ficção No. 5

  1. Paty disse:

    E você, é ator de quantos papéis?
    Já se apaixonou por um simples detalhe ou por um simples instante?

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