Ficção No. 6

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Tarde de terça, ônibus quente, bancos quentes, e melhor não comentar o que eu pensava sobre o cheiro das pessoas naquele ônibus. Minha mulher dormia aos trancos, e eu não acreditava no dia em que casei com ela; não acreditaria mesmo se não houvesse o papel, mas nem ia pensar nisso, ela estava quieta naquela hora.

Apesar disso tudo parecer assim tão normal, algo parecia que não ia terminar bem, ou, pelo menos, acontecer bem. Pode parecer bobagem, mas estes sinais apareceram com meus primeiros pelos nas orelhas, como se fossem aqueles bigodes de gatos. Deixaram-me mais consciente, como se Jesus soprasse pequenos segredos novos e antigos em meus ouvidos.

Por isso eu sabia que o garoto ia entrar no ônibus com aquela arma de plástico, e ameaçar o motorista. E o cagão do Muleta ia obedecer, bem quietinho, mastigando a língua enquanto entrava pelas ruelas do centro, raspando os retrovisores das Brasílias estacionadas sobre a calçada, ouvindo o coro pouco gregoriano dos taxistas enraivecidos.

Mas ele nem sempre me contava tudo, e foi de manchar minhas velhas cuecas quando o Muleta gritou fininho entre os dentes, e subiu no calçadão. Encontrou hordas ainda mais inebriadas do que os taxistas; os camelôs xingavam da mãe à  décima quinta progenitora, e medo mesmo foi quando uma janela quebrou de bater em uma placa.

E não foi a última, mas eu tinha parado de contar quando foi a segunda e depois a terceira. Não vi mais nada, e o Muleta parou o ônibus de repente, embaixo de uma sacada de sobreloja, dessas de turco que vende tecido, um prédio velho, com aquelas placas coloridas que ninguém entende.

Parei para olhar, e o garoto não estava mais lá sobre o motor, e o diabo da minha mulher cismava em continuar babando junto à janela, o Muleta gritando, sem levantar, o cagão. E eu estava sabendo, o garoto não estava brincando, eu lia nos olhos dele.

Até acreditei quando a menina do banco lá da frente contou que ele subiu voando pela porta até o teto, e entregou uma flor e uma carta para uma garota na sacada da loja, a que ficava sorrindo e segurando a faixa das promoções. E só eu acreditei, mas só porque eu vi o garoto pulando, calça jeans e camiseta e tênis colorido, no meio do povo que caminhava, e só um guri doido de apaixonado poderia andar entre as barraquinhas quebradas sem que ninguém visse que era ele o bandido sequestrador. Pisquei para a guria do banco da frente, pois ela precisava saber que eu acreditava nela, e que ela não era a única boba ali.

Sorri, é sempre bom ver alguém jogando fora do tabuleiro. Minha mulher queria acordar, mas eu disse que o ponto ainda era longe daquele ônibus ali parado e cercado de gente apressada. Pressenti que ia ficar de noite em um ponto de ônibus bonito na beira da avenida cheia de prédios, e era isso mesmo que tinha de ser para comportar meu último sorriso.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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Uma resposta para Ficção No. 6

  1. rodrigo disse:

    oi
    bom dia
    entrei aqui para te desejar um otimo fds
    xau

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