Monsanto

Os assuntos polêmicos o são, quase sempre, por falta de uma luz apropriada, que se espalhe sobre eles, e nos permita uma crítica apropriada, uma opinião correta. Krishnamurti diria isso se estivesse vivo, e poderia tecer uma série de considerações sobre um assunto sobre o qual são despejadas doses absurdas de ignorância, proveniente de ambos os lados da encarniçada contenda. Falo dos transgênicos, e entrei nesta trilha pedregosa trilha depois de assistir a um criminoso comercial da Monsanto, gigante do ramo de insumos agrícolas.

Os nossos amigos da Monsanto querem nos convencer de que existe um admirável mundo novo por trás da transcendental tecnologia por eles utilizada, e que não devemos esperar mais. O comercial fala de óleo combustível baseado em vegetais de alta produtividade, em alimentos para um mundo em expansão, e toda sorte de balela abstrata mentirosa.

E o chato do PSTU vai dizer: “malditas sementes envenenadas”, “tecnologia que não foi testada”, e coisas assim, esbravejando, tão ignorante quanto o outro lado.

Não que a tecnologia seja segura; nada disso foi provado, apesar do picaretíssimo selo de uma tal associação brasileira de nutrologia. O problema vem antes da saúde, e chama-se Soberania Nacional.

Achou estranho? Mas não ache, apesar de tudo, o Brasil é um país soberano, e comanda, ou deveria comandar, um bloco importante da economia mundial. Temos de ter orgulho desta terra linda, apesar da ladroada que nos assola. E vermes parasitas como a Monsanto deveriam ser expulsos daqui. Porque?

É o seguinte: o Brasil é um país onde existe um potencial imenso de agricultura familiar, pequenos produtos com pequenas propriedades, usando sementes desenvolvidas na EMBRAPA, que também deve dar apoio técnico aos agricultores. As pequenas propriedades se utilizam de muita mão de obra, fixando o homem ao campo, e formando pequenas comunidades auto-sustentáveis.

O modelo norte-americano é radicalmente diferente. Grandes propriedades, mecanização agressiva, tecnologia pesada e insumos baseados em petróleo. A terra deles não é essa mãe doce que se encontra sob nossos pés, rica e abençoada pelo Sol. Os americanos entopem sua terra fria de esteróides e anfetaminas, extraem violentamente tudo o que podem.

Este modelo já vem sendo aplicado por aqui, mas agora, além do modelo, querem nos vender as benesses consumistas dos insumos. Querem nos provar que precisamos de mais veneno, querem nos provar que precisamos de mais produtividade, querem nos provar que podemos prescindir de trabalhadores no campo.

Venenos para violentar nossa terra, produtividade para engordar os lucros dos latifúndios, máquinas para aumentar o êxodo rural.

Mas um fator parece ser transparente aos combatentes: as sementes chaveadas transgênicas. Assim como os híbridos, as sementes transgênicas da Monsanto possuem um código genético que inibe o nascimento de um segunda geração de plantas a partir da colheita. Em outras palavras, o agricultor vai semear seus grãos, e eles germinarão, mas nunca crescerão, inibidos pelo chaveamento dos irmãos americanos, e o agricultor terá de ir comprar sementes com a Monsanto, todo ano. Não é um belo modo de controlar corporativamente a agricultura de um país inteiro? Assim nasce a dependência.

Ok, eu posso usar sempre as minhas sementes, e não acontecerá isso comigo, certo? Errado, pois o seu vizinho usa sementes transgênicas, e a contaminação se dá na polinização, criando mestiços, tão bloqueados quanto aqueles originais da Monsanto.

Precisamos discutir os transgênicos, mas munidos de conhecimento, ou estaremos fadados a continuarmos cegos, nos debatendo enquanto a Monsanto vai entrando em nosso país, e roubando aquele pouco de soberania que nos resta, justo aquele pouco que esta bela natureza nos deu, como uma dádiva.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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3 respostas para Monsanto

  1. Luís disse:

    A tática da monsanto é ganhar a opinião pública nacional para aprovar o projeto de liberação de transgênicos que está no congresso.

    Não acho que proibir seja o certo, mesmo porque não adianta, todo ano vamos ter que liberar a venda de transgênicos do Rio Grande do Sul para preservar a nossa frágil balança comercial.

    A União Européia está adotando uma tática de informação ao consumidor e opção na compra. Deixar os consumidores decidirem com base na rastreabilidade (traceability) da origem do produto, ou seja, um aviso “contém transgênicos” ou “não contém transgênicos”

    Lembrem-se que na Califórnia o McDonalds usa batata orgânica porque os consumidores simplesmente parou de comer as fritas transgênicas.

    O consumidor é o lado mais forte dessa briga…

  2. Aline disse:

    Li no Diário Catarinense de hoje que este comercial foi proibido, por dois motivos.
    1º) Como a Monsanto é registrada no Brasil como fabricante de agrotóxicos, seus comerciais devem ficar restritos aos horários de programas sobre agricultura. Não pode ser veiculado em horário nobre, por exemplo.
    2º) Ainda não comprovaram que os transgênicos geram maior produtividade, o que torna a propaganda enganosa.

    Enquanto o CONAR não proibiu o comercial, tivemos que engolir aquela balela toda. Isso é Brasil.

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