Dimensões ínfimas

Capra

Este domingo passou como um punhado de pó diante de um sopro de gigantes nórdicos do gelo. Passaria proverbialmente pela minha janela, através do vidro, se assim pudesse ser. E poderia ser, descubro nas páginas de O Tao da Física.

Fritjof Capra vai traçando suas linhas de congruência entre física quântica e misticismo oriental, e, como é praxe, lê-se o que se quer, o que se tem dentro de si. E nem estou falando das apropriações indevidas em toda uma linha de livros estúpidos de auto ajuda, e sim das leituras fáceis, como pudesse tratar-se de um livro-texto para gurus, evidenciando um suposto embasamento científico para o Saladismo new age.

O físico é elegante na fuga dessas armadilhas, embora qualquer um sinta-se livre para distorcer quanto lhe interesse. Entretanto, a quem busca uma abstração rica, O Tao da Física não decepciona.

Perseguindo uma ótica diversa da cartesiana e newtoniana, Capra elucida conceitos cabeludíssimos da Física Quântica em suas comparações. Distraídos, tentando captar a ligação entre os físicos dos aceleradores de partículas e os místicos dos templos orientais, acabamos por vislumbrar a grandeza poética das teorias dos primeiros, e também descobrimos que tempo realmente nada significa para os últimos.

Ninguém dirá que os físicos modernos entendem do que falam, ou que os místicos orientais efetivamente esqueçam do horário do lanche matinal, mas existe uma porta ali, para vôos mais altos.

Depois de um dia como o de hoje, é um alívio perceber que nós, e tudo que nos rodeia, nada mais é do que uma brincadeira de uma comunidade numerosa de pacotes de ondas. Nem mesmo partículas, mas quimeras de realidades brincalhonas.

Tal modo de pensar tira o peso dos ombros, coloca uma perspectiva deliciosa em um olhar atento e quieto. Torna os fatos leves, e penso que é possível que os safadinhos, os tais pacotes de ondas, tenham formado também um velho barbudo e toda uma infinidade de magias perdidas em todos os cantos do mundo, só de pirraça, para ver suas criaturas, ondas dos pacotes deles mesmo, brincarem também.

E o mais divertido é se for ainda mais diferente do que isso.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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Uma resposta para Dimensões ínfimas

  1. (não adianta, já estava na minha lista de livros).

    essa história toda só me faz lembrar o tanto que os racionalistas positivistas cartesianos são babacas.

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