Chuvas Antigas

Eu, preocupado?

Ao final desta tarde de domingo, a Natureza deu a mim, e a todos que estavam sintonizados, uma bela chuva. Uma chuva acompanhada de vento vindo do Sul, que animava os pingos com uma vida sobrenatural, e arremessava-os com uma fúria a qual não consigo dar adjetivos. Esquecendo estes últimos, apenas deixava-me atingir pelos primeiros, mergulhando num fluxo puro e único de ar e água.

Os pés, mergulhando em poças cheias de fragmentos de folhas, pequenos galhos, insetos em desespero e areia finíssima, aceitam as picadas das formigas que emergem junto aos pés de mandioca que fui salvar das espaçosas moitas de capim que vicejam nestas instâncias de janeiro.

Os cabelos lavam-se de uma água que morre ao ser encanada. Dentro dos tubos, aprisionada, empurrada, escravizada, ela não pode mesmo reter a delícia que despeja sobre as cabeças dos felizes adeptos dos banhos de chuva.

Alguns dias antigos vieram durante a chuva de hoje. Voltei ao tempo em que vivia sozinho aqui mesmo na praia, quando não havia ainda uma casa grande pronta, e apenas uma pequena Filó fazia companhia para este escriba. Ela adorava brigar com o tapete pequeno da frente do banheiro, e nos observava atenta com as grandes orelhas levantadas. Vê-la tão velha e apagada agora seria triste, não fosse esta chuva, que conta histórias de sempre, ontem-hoje-amanhã. Ela conta que tudo flui em todos os sentidos, e tudo transforma-se, e que a decadência é tão importante quanto a ascensão, que o nascimento é tão importante quanto a morte.

Ainda nos tempos em que a Filó era minha única companhia em casa, lembro-me de um chuva forte quase nos moldes da de hoje. No meio do barulho intenso das gotas havia um silêncio que me chamava. Naquele fim de tarde, eu saí de dentro de casa para colocar os pés na água, afundando os pés na areia, que guardava resquícios do Sol do meio tarde sob o palmo de água que cobria-a.

Por fim, voltei um pouco mais, numa tarde distante em Marcílio Dias, onde eu cresci. Minha mãe olhava pela janela enquanto eu e meu pai corríamos pelo gramado, sob a chuva mais forte que aqueles cinco anos poderiam deixar-me lembrar. Aqueles dias mágicos, em que os pais ainda possuem o rosto de deus para seus filhos, eles podem muito bem abrigar-se num dia de chuva. Como hoje.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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Uma resposta para Chuvas Antigas

  1. Walkiria disse:

    Tão singela quanto a tarde de chuva que descreves
    É a beleza secreta que cintila
    Nos olhos do atento escriba…

    Captando a sensibilidade de momentos frágeis
    Que passam tão rápido…
    Que marcam tão intensamente…

    Tuas palavras desepertam o desejo alheio de também afundar os pés na areia, em tarde de beneditina chuva…

    Os donos de tais pés, porém, talvez desconheçam o teu sentido pois não trariam a pele a mesma força de tais recoradações…

    Recordações tão tuas…

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