Dois Filmes

Pássaros são uns bichos estranhos. Alguns inventam de voar milhares de quilômetros, e deixam-me cismado sobre a razão de tamanho empenho. Eles deixam sua região, e procuram regiões mais frias para ter e criar seus pimpolhos, e depois voltam quando esfria demais. Algum dia entenderei isso.

Por enquanto, fico falando de Migrações Aladas. E não há muito o que falar, o esquema é entrar na sala de cinema, e babar com a beleza da Natureza, magistralmente capturada com uma tecnologia poderosa. Comentários pipocavam ao final da sessão, aludindo ao quanto seria interessante um outro filme contendo o making of daquele a qual havíamos acabado de assistir.

E com razão. Os vôos são acompanhados de muito perto, como se fôssemos mais um dos pássaros, participando do espetáculo poético da migração. Entre as folhas, descendo penhascos, fazendo manobras mirabolantes, as cêmeras entram em todos os espaços, prescrutam todos os detalhes. E, o melhor de tudo, com uma alma de cinema por trás delas. Esqueça-se das bobagens do Globo Repórter: o que temos aqui é contemplação, a vastidão do espaço e, porque não, a tragédia.

Milhares de pássaros morrem nas migrações. Seja o maçarico, de asa quebrada, bizarramente atacado por caranguejos, seja o filhote de pingüim degolado e devorado diante de sua família, todos são observados silenciosamente pela câmera. Neste ponto, surge o dilema do documentário: ajudar aquela criatura condenada, ou registrar a Natureza, que considera isso tão normal? Penso que não devemos colocar nosso moralismo nesta balança; a Natureza sabe bem mais do que nós, arrogantes caçulas da criação.

A criação de Jacques Perrin termina com uma canção de Nick Cave, soturna e poética, espaçosa como o filme que deixamos para trás. Os súbitos suspiros, os sustos, a tristeza dos esquecidos, as surpresas que nos roubam o ar, tudo vai se apagando com as letras, e os pássaros continuam estranhos e belos.

O mote de Callas Eternamente é a retomada da carreira da soprano grega através do uso de um expediente não exatamente honesto. O responsável pela idéia é o empresário de estrelas vivido por Jeremy Irons, que agencia, naquele momento, uma banda de punk rock Bad Dreams.

A banda é caracterizada como uma mistura de The Who com Sex Pistols, apesar da única canção no estilo ser do The Clash. Um caso típico de estereótipo, ainda não impedido pelas autoridades em roteiros cinematográficos; uma legislação faz-se necessária!

Apesar disso, o nome da banda permite alguns chistes interessantes, sem falar nas situações-clichê de destruição de hotéis e congêneres. Ah, e tem um comentário ótimo sobre bateristas, e tudo isso sem aparecer na tela.

Os hormônios masculinos se espalham pela telona. Num primeiro momento, as mulheres podem ficar decepcionadas pela personagem de Irons ser homossexual, mas logo estarão deleitando-se com os rapagões bem apessoados que pipocam pela tela. Os suspiros da platéia feminina não me deixaram dúvidas.

Mas quem manda no barraco é a semi-deusa Fanny Ardant, que apresenta um leque vigoroso e amplo de expressões, com as quais compõem uma primadonna alheia e deprimida. A cena final com Irons, onde o empresário musical redime-se de sua vida, mostra Callas em um estado acima da realidade, como se pudesse enxergar as agruras do seu amigo, e as deixasse correr apenas por saber que a ordem divina dos fatos assim deve ser.

Zefirelli dirige corretamente sobre um roteiro naturalmente piegas, como parece convir aos italianos contemporâneos dele. Não chega a atrapalhar, mas o tom fabuloso, por vezes, só é suportável pela excelente atuação de Ardant. E há ainda o fato de ser falado em inglês, mesmo sendo passado em Paris. Mas, noves fora, feitas as contas, é um belo filme.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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3 respostas para Dois Filmes

  1. Antonio Morales disse:

    gostaria de citar seu comentário, mas tive dificuldade de encontrar suas referências.
    Seu nome, etc.

    Onde posso encontrar para lhe dar o devido crédito?

    abs
    antonio morales

  2. Walkiria disse:

    Tivesse eu lido tua resenha antes de assistir ao adorável filme, talvez tivesse experimentado um encantamento maior…

    De fato… a maravilhosa Fanny mostra que não é com botox que se constrói uma diva única…

    Pode parecer rude e até mesmo tosco, mas foi a presença dela que salvou o filme… para mim, pelo menos…

  3. humberto mac disse:

    heart of my heart,

    eu passo os domingos vendo esses documentários sobre animais. Algumas cenas também já me perguntei (e imaginei) como a equipe pode estar lá, como a câmera pode estar posicionada. Acho – não sei se é ingenuidade – que eles na verdade estão meio longe, com alguma lente ultra-mega-super-zoom.

    quando os bichinhos morrem, ai, meu coração parte. É uma sensação contraditória, já que eu comi filé de frango no almoço.

    O Bobo Repórter é o fim. O texto é muito ruim, gente. Aquela coisa “o filhotinho levou um presentinho para sua mãezinha pq adora aquela que o cria com tanto carinho”. hehe

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