Um Filme e Um Réptil

A chuva que lava Florianópolis nos últimos dias deixa as ruas, diurnas e noturnas, fora do tempo, de certa forma. Ocorrem eventos tais que, passadas as nuvens carregadas, não lembraremos deles senão como sombras de fatos, lendas de um cotidiano fugaz.

Papel perfeito para mim!

Num desses dias, surgiu a prova cabal de que os europeus usam melhor as luzes da técnica artística do cinemão de Hollywood. Love Actually usa os mesmos truques e as mesmas apelações do circuito tradicional do Oscar, e alcança resultados interessantes, o que, na era atual do cinema estúpido na terra estúpida com um presidente estúpido, seria uma benção.

A diferença está no desprendimento que os ingleses sentem em relação ao politicamente correto, e ao fato de ser exatamente isso o que o mundo espera deles. Onde os americanos sugerem a fábula, os ingleses a escancaram, impedem que o plausível adentre demais as pequenas tramas. É assim que funciona a viagem de Colin aos braços hormonais das mulheres, fabulosamente fáceis diante de seu sotaque carregado, americanas, e é assim que funciona o flagrante ao Primeiro Ministro de Hugh Grant com a secretária de pandeiro abundante, e, em última instância, é assim mesmo que funciona a Família Real.

Falar em excesso e esquecer o executor da canção que permeia o filme seria, no mínimo, injusto. O cantor Billy Mack é o ápice do conceito da esperada tosquice britânica, e ele dá a todos tudo o que esperam dele: declarações grosseiras, recheadas de sarcasmo e palavrões que soam naturais e apropriados; clipes declaradamente podres e vendidos; piadas de baixo calão e chistes no mesmo estilo; funcionalismo ao pavimentar sua volta com uma velha canção regravada sem nenhum escrúpulo. Mack é um deus solitário no panteão bretão, guiando as peripécias do roteiro como se fosse seu único destino.

Nesta linha, o filme segue, cheio de histórias bizarras, mas plenamente adequadas ao mundo despedaçado em que vivemos. Algums terminam bem e bobamente, como a do personagem de Liam Neeson e de seu enteado, e outras terminam mal, e igualmente bobamente, como a da irmã zelosa com seu sarado designer, vivido por um ator importado aqui do Brasil, e que representa bem o estilo novela das sete: poucas palavras, nenhuma camisa, e um bíceps torneado.

Incorreçõs à parte, alguém que não seja cínico pode enxergar a beleza concisa do gesto do rapaz que se desapaixona da esposa do melhor amigo, quebrando a imagem de pureza exalada pela boneca. Realmente, foi uma saída sutil, reforçando o caráter estrategista do publicitário apaixonado.

Para fechar o filme, uma retomada do tema inicial, no aeroporto, amarrando tudo, e fazendo com que todos nas poltronas saiam correndo para beijar alguém. O que, em suma, é exatamente o objetivo das comédias românticas, e não as impede de serem inteligentes.

***

De quebra, na saída do CIC, um chuva torrencial, digna de ser classificada como “hecatombe bíblica” em meu dicionário pessoal. E descobertas, ali naquele mundinho ilhado, de bombons de cupuaçu e surpresas.

Saímos caminhando assim que a estiagem anunciou-se, em direção ao terminal da Trindade, pelo estacionamento do CIC, onde as ervas daninhas juntam-se às lajotas para desenhar uma colméia preenchida de água brilhando sob as altas lâmpadas.

Olhando para um dos canais de esgoto próximos ao terminal, um pedaço de madeira. Não, ele estava vivo, brilhava seu couro de réptil. Um lagarto, talvez. E eu estava errado ainda. Tratava-se de algo maior, mais raro, um jacaré, meus amigos, um belo jacaré, imerso na fronteira entre a água apodrecida do esgoto e a água das gotas da chuva. A luz sobrenatural daquela noite acentuou-se, como se aquele animal fosse um evento trator, uma perturbação mística no horizonte dos eventos.

Como ele era, todavia, absolutamente real, não pude deixar de pensar no destino de tão belo animal, nadando ali entre as escavadeiras e a sanha derramadora de concreto de nosso povo e nosso governo. Quantos dias restam para ele nadar, antes de ser violado, invadido por uma turba de seres ignorantes da beleza?

Penso um pouco além, enxergo com tristeza o mangue, e já imagino que mãos serão molhadas para que ele também se vá, aterrado e morto. Algo de funesto e fúnebre ronda a magia da Ilha.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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5 respostas para Um Filme e Um Réptil

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  4. Mirian Yoschie disse:

    E cá entre nós… O mais legal dessas comédias românticas consiste no fato do filme acabar e você poder se dar o luxo de permanecer deliciosamente aninhado na poltrona enquanto corações partidos, solitários ou afoitos vão à caça ou a desesperada procura de alguém para beijar…

  5. Jonas disse:

    Sensacional o texto, capitão. Bem notada as diferenças entre os ingleses e os americanos. Aliás, as cutucadas que eles dão nos ianques são exemplares: aquela alfinetada no presidente e, depois, o comportamento das mulheres da terra do Tio Sam.

    Mas e esse jacaré, hein? Cada coisa bizarra.

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