The Divine Comedy: Absent Friends

Faço um exercício de imaginação, e vejo a vida atual de Neil Hannon. Ele está em casa com sua esposa, sua filha, e um cão. Seu cabelo continua estiloso como sempre, e sua voz ainda é aquela que exalta os assuntos sobre os quais canta, e sua paleta de melodias continua brilhante, colorida por arranjos de seus brilhantes amigos Joby Talbot e Yann Tiersen, sem falar nos dele mesmo.

Quando está em casa, sua pimpolha Willow não o deixa em paz, e ele sorri enquanto ela dá gostosas gargalhadas diante das bobagens que o pai faz para agradá-la. O cão corre de um lado para o outro, dentro do mundo seguro de uma cerca de madeira colorida em tons claros. Como na canção do Talk Talk, Hannon está “vivendo em outro mundo”, para agradar àqueles que ama. Então, os arranjos têm esta cara mais tranqüila, este jeito caseiro, quase suburbano, mas sem perda de classe.

Papai Hannon gravou este álbum. Enquanto os primeiros discos traziam um sonhador romântico amarrado ao classicismo literário e cinematográfico, Casanova era o relato de um hedonista, que acabaria por decepcionar-se em Fin de Siecle. Regeneration é um moralista na ressaca de seu casamento. Em Absent Friends, é um pai feliz, tendo, à guisa de musa, sua família.

Neil parece ter deixado de lado as caminhadas mundanas ou mergulhos literários para cuidar da corujice, deixando algum pouco tempo para cuidar do sustento da família através da música. Este ambiente familiar se espalha pelos canções e pelos arranjos. As guitarras foram deixadas para trás, felizmente. Não que Regeneration fosse um mau disco, mas Hannon é grande demais para limitar-se a um estereótipo indie. Seria estranho não encontrar, neste disco, uma condução sinuosa como a de Sticks and Stones, por exemplo.

Antes do fim, vale lembrar que Neil, apesar de feliz, não se derrama em canções bobas. Ok, The Happy Goth tem boas estrofes, um refrão não tão bom, e um tema bem bobo. Leaving Today parece deslocada na vida atual do nosso artista, e a faixa-título não tem citações tão inspiradas quanto poderia se esperar dele, mas, diabos, ele não pode acertar sempre!

Em compensação, podemos ouvir um final de álbum doce e perfeito como Charmed Life, composta das pianolas que já são caracterí­sticas do trabalho do irlandês. O clima é de uma melancolia aceitável, de quem olha, por cima daquela mesma cerca de madeira colorida, para um mundo que nunca entenderá o quanto se está alegre. E Come Home Billy Bird, que delícia! Feita para funcionar, é um disparo certeiro e injusto, pois não há como tirar o refrão da cabeça depois de meia audição.

Não fosse a morbidez associada, eu ficaria criando novos exercícios de imaginação, tentando descobrir onde a obra do Divine Comedy poderia ir. O problema é que o homem está tão feliz que eu não consigo imaginar mais o que possa acontecer de bom, e então restam apenas coisas tristes, e isso eu não desejo a ele, nem que seja pelo bem da arte.

(…)

Há pelo menos três coisas em comum entre Thom Yorke e Neil Hannon:

1. Eles são geniais;
2. Eles trabalharam com Nigel Godrich;
3. Eles são pais recentes.

Bah, que futilidade! Deste jeito, daqui a pouco vou ter um fotolog! ARGH!

E já que estamos sendo fúteis, vou citar o comentário do sempre maldoso NME: “Is that album title a reference to his old bandmates then?”, remetendo ao desmantelamento da formação que gravou Regeneration.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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3 respostas para The Divine Comedy: Absent Friends

  1. Pingback: The Divine Comedy: Black Sessions 2004 « sinestesia

  2. Jonas disse:

    Grande texto, gostei bastante.

  3. lalai disse:

    nossa, acho que nunca ouvi! alias, a descrição inicial para mim soou deliciosa! às vezes sinto um pouco de falta de rotina! como pode? Mas é até ela aparecer, aí entro em desespero novamente!

    beijos

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