Gaspar Noe: Irreversible

Segundo boa parte da crítica que li rede afora, o filme de Gasper Noe foi feito para chocar. Como não conheço as intenções do diretor, e realmente não estou muito interessado, resta-me analisar o fato a partir da evidência de haver assistido ao filme. O que é, na verdade, o que eu faço sempre.

Eu aguardava, depois de minha segunda sessão de Invasões Bárbaras, refletindo sobre a bela obra de Denys Arcand, quando chegou um colega do aikidô. Este meu camarada possui o perfil típico do militante de esquerda, e, ao saber que eu ficaria para a sessão de Irreversible, comentou algo sobre o filme ser “pesado”.

E o filme é “pesado”. Considero esta uma forma correta de descrever uma viagem cinematográfica fortemente embasada em programas da estirpe do Cidade Alerta, usando como alvo da violência a atual mais bela mulher da Europa, Monica Bellucci.

Aqui vale um parênteses. Monica já apareceu maravilhosa em Pacto dos Lobos, e em Irreversible ela apenas confirma isso. Uma Deusa. Fecha parênteses.

A câmera começa totalmente desgovernada, causando náuseas com seus giros e tomadas desconexas. Conforme o filme avança, a aparente bagunça da filmagem toma formas de um padrão, onde os movimentos nauseantes são marcas de corte para mais um dos episódios. Vale ressaltar que o filme é contado à moda de Amnésia, em sentido inverso, tornando mais importante a função de demarcar as fronteiras de cada episódio da história.

Irreversible

A história não é nada importante perto da crueza como é contada. O roteiro não encerra grandes segredos, e a seqüência invertida dos eventos é que acrescenta algum charme às descobertas que o espectador vai fazendo.

Algum subtexto pode ser lido. É interessante que o executor do estuprador seja justamente o ex-namorado cerebral de Alex, e não seu atual, que caracteriza-se pela fúria irracional. Este é tirado de campo rapidamente, ferido e inutilizado, ao que responde o primeiro com uma violência lancinante.

O impacto de certas cenas se perde por alguma excessiva vontade de mostrar tudo, um expediente que lembra a pornografia, e não estou falando das cenas do estupro. Falo de crânios arrebentados, de chutes em rostos angelicais.

Outro ponto interessante é que o estuprador justifica-se vagamente contra a classe de onde provém sua vítima, mas nem mesmo ele parece achar que suas palavras têm alguma validade. Ele fala apenas, e deixa o caminho aberto para que o vingador venha buscá-lo.

Irreversible

Como no mundo real, em Irreversible ninguém entende o que acontece. Os viados do Rectum xingam os vingadores sem ter noção de que aquela violência realmente aconteceu, sem mesmo imaginar que havia uma razão para que ela houvesse acontecido. Marcus e Pierre, tampouco, entendem. Eles são apenas títeres de circunstâncias e frustrações.

O evento principal, ou aquele que move a polêmica em torno do filme, é o ato do estupro. Mas ele está cercado de outros eventos menores, que justificam uma dramaturgia, e levam as peças aos pontos limites de suas trajetórias. Estes eventos menores contém abstrações interessantes, que acabam diminuindo o impacto dos pontos mais cruentos da história, embora sem justificá-los.

E o final mostra a câmera brilhando, girando no nascimento invertido da trama, evocando o osso girando no princípio da humanidade de 2001, Uma Odisséia no Espaço.

Trocando em miúdos, vale a pena assistir a Irreversible.

Anúncios

Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
Esse post foi publicado em Cinema Europeu e marcado , , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para Gaspar Noe: Irreversible

  1. Mirian Yoschie disse:

    Os defensores que me desculpem mas o filme está cheio de cenas muito broncas e excessivas. Mas o pior nem é isso.

    Não se trata de estrito formalismo as regras.
    Até compreendo que certas terminologias podem vir a ser mais (ou menos) adquadas dependendo do ponto de referência e onde se quer chegar.

    A crítica e a quase indignação desta pobre mortal repousa no fato do uso indevido do termo “estupro”, talvez justificada em razão da formação jurídica. E (maldita?!) formação esta que não me permite engolir que Alex (a européia bonita do Gilvan) e alguns homens do filme tenham sido “estuprados”.

    Para não ser radical, eu até perdoo o linguajar coloquial pelos motivos já citados mas que fique claro: Técnicamente falando, estupro é uma coisa e atentado violento ao pudor é outra.

    E no filme não há nenhuma, eu disse,
    N E N H U M A cena de estupro.

    Damásio de Jesus e meus professores de direito penal que o digam!

    Nota cinco para o filme.

    Agora é melhor eu parar de pensar no assunto…

    E pra vc meu querido Gilvas, pra vc um GRANDE abraço e um beijo carinhoso no seu coração!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s