Aos Berros e Morte

Moro no Morro das Pedras há mais de dez anos, contando uma interrupção de módicos oito meses, durante os quais passava os finais de semana aqui, de modo que considero um período contínuo.

A comunidade daqui é bastante fechada, e assemelha-se a uma comunidade de interior a ponto de eu imaginar que a comunidade de subúrbio é quase uma transposição pura e simples do seu equivalente no interior.

Sociologias à parte, um traço específico impressiona a minha pessoa aqui nas Areias do Campeche (minha região específica no Morro das Pedras). Quase todas as mães nativas que observei costumam gritar com os filhos. E são berros costumeiros; uma cena típica é o filho estar passando, e sua mãe emitir ordens, mesmo as mais triviais, em altos brados.

As crianças mostram-se, não raro, apáticas diante de tais exasperos, e seguem com suas ações triviais, aparentando estarem acostumadas com o tom.

Vale ressaltar que o tom não é aquele dos falastrões italianos, os quais conheço muito bem. Italianos, principalmente os colonos, falam alto entre si, exageram nos gestos, e o fazem em uma ordem contínua, falam alto com todos. No caso dos açorianos, parece que toda interpelação materna ou paterna é um ralho modulado em freqüências extremas, estridentes, soando com um fundo de irritação, saliente.

Confesso que nunca vou entender este tipo de comunicação.

death

Andei lendo um gibi chamado, se não me engano demais, A Festa da Morte. Jill Thompson escreveu e desenhou uma história que conta os eventos paralelos à disputa da chave do Inferno em Estação das Brumas.

Thompson pegou uma tarefa difícil, pois Estação das Brumas é um dos momentos mais interessantes de Sandman, onde Neil Gaiman desfila seu excelente conhecimento de divindades diversas. Além disso, ela desenhou em estilo mangá, buscando leveza para a personagem Morte, efeito ampliado pelo enfoque “clube da Luluzinha” adotado.

Como previsto, ela tropeça feio. Os personagens de Gaiman, mesmo a Morte retratada tão juvenil, são tenebrosos e taciturnos em sua essência, característica apropriada em Eternos, que estão além das questões dos deuses e dos mortais.

Pelas páginas de A Festa da Morte o leitor encontra uma sucessão de referências à história principal, e os muitos tropeços de Jill Thompson na tentativa de criar um paralelo convincente entre os eventos no Sonhar e as peripécias das meninas no apartamento da Morte.

Este tipo de iniciativa vai contra aquela idéia de cuidado irrestrito de Neil Gaiman com seus personagens. Será que ele fez isso deliberadamente, ou é a idade chegando?

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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Uma resposta para Aos Berros e Morte

  1. Mirian Yoschie disse:

    Então… e elas gritam umas coisas que vão do bestial ou sinistro. E essa espécie de comunicação parece ser tão corriqueira que já nem se dão conta do que dizem em público. Exemplo disso foi um: “Vem catá piooolho” que ouvi esses dias. Sim, amigo, foi isso mesmo que ouvi.

    Haa… e já reparaste um outro detalhe muito
    peculiar dessas progenitoras nativas?

    Elas estendem as roupas em cercas de arame farpado!!! E eu sempre me pergunto: Por que elas não usam varal???

    Intrigante.

    (…)

    É…As pessoas têm uns hábitos bizarros…

    Abraço bem carinhoso pra vc!

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