Sobre o Tempo

Eu estava papeando com uma amiga que está em fase inicial de paixonite, e ela me dizia o quanto estava se sentindo bem por estar com o José, e que não entendia como pudera ficar tanto tempo com um tosco como o João. Ela foi contando alguns detalhes, e eu dizendo para ela que o João deveria ter sido especial no tempo dele, e que agora era bom ela aproveitar o José, mas sem desprezar os bons momentos com o João. E ela concordou.

Hoje eu estava arrancando inocentes capins pelo quintal, e divagando sobre nossas noções do tempo. Na situação da minha amiga, enxerguei um absoluto, uma ruptura entre o presente e o passado, que ela descreve, nas entrelinhas, como se ela estivesse hipnotizada, com a mente enevoada, confortably numb. O passado está atualmente em uma âncora, que ela observa afundando presa a uma corrente, e a corrente não se prende a nada. Ou quase nada.

E o que isso tem a ver com o tempo? Bem, Capra escreve sobre a Física Moderna em um de seus best sellers, e descreve uma passagem sobre a correlação da noção moderna de vácuo em justaposição ao conceito budista de nada.

Vejamos, o vácuo, pela teoria moderna que o Capra cita, pode dar origem a todas as possíveis “partículas” e suas correspondentes “anti-partículas”. Desta forma, o vácuo pode ser considerado mais fecundo do que os espaços que contém matéria, pois as transformações destes últimos são limitadas.

Por outro lado, ou pelo mesmo lado, o “nada” dos budistas é “tudo”, um turbilhão de possibilidades.

Levando os devaneios um pouco mais adiante, arrisco uma analogia com o tempo, que não deixa de ser uma coordenada a mais na Física, de modo que não digo nenhuma novidade. De novo.

Pela tal analogia velha e batida que eu coloco, os eventos do futuro e os eventos do passado condensam-se no presente, no instante que estamos vivendo. Neste momento convivem as realidades comprimidas de nossa existência pregressa e nossa existência possível.

Uma existência possível? Sim, apenas uma. Existe a possibilidade de dividirmos as existências em múltiplas facetas quando alcançamos certas encruzilhadas, e estas divisões poderiam criar inúmeros mundos resultantes de tais interações, mas eu restrinjo-me a apenas uma existência, pois não sou consciente das existências paralelas da encruzilhada.

Por este caminho da existência única possível, nosso futuro decanta-se em uma série de conceitos “para sempre” e “nunca”. “Amarei tal garota para sempre”, “nunca ouvirei polca”, e por aí vai. Temos nossas convicções, e uma série de certezas neste momento congelado, o presente. Neste momento, temos uma visão clara do que foi o passado, pois ele está distante, visível apenas como um ponto de trajetória alheia a nós. Da mesma forma, o futuro são apenas linhas de guia, apontando sem definir.

Assim, sinto-me despreparado quando alguém pede-me para dizer se estou melhor do que estava ontem. “Ontem” é apenas a página menos amarelada de um livro em papel-bíblia, e reescreve-se a cada novo clique do instante, a cada passo da realidade. Da mesma forma, meus passos possíveis no futuro se amontoam no fogo cruzado entre as minhas convicções do instante presente e as diversas conjunturas, às quais ainda preciso adaptar-me, possivelmente modificando as próprias convicções.

Entretanto, tudo bobeira, pois o tempo é contínuo, dizem. Sendo assim, é um tanto absurdo fotografar instantes. Mas tudo bem, capice, tu não esperavas que eu pudesse chegar a algum lugar neste exato instante, esperava?

BTW, vale relembrar que os nomes “José” e “João” são tão fictícios quanto aparentam. Pensei em usar “Napoleão” e “Epaminondas”, mas ia soar como uma anedota de algum povo europeu bigodudo.

***

Ainda sobre a Maria Rita, outra abstração nascida de capins arrancados no quintal.

Ela soa pronta demais, produzida demais. Ela chega ao universo musical brasileiro com uma cruz ou uma benção, o que dá na mesma. Maria Rita entra no ônibus, e já tem um banco para ela, mas com o nome de outra pessoa. Assim que senta, ela é polida, corrigida, ajustada, limpa, retocada e entregue com uma imagem imaculada dentro de um papel específico, como se ela nunca pudesse ter uma escolha. Seu disco é o clichê da intérprete da mais arcaica MPB; tudo certinho, polido e sem graça, e não é culpa dos compositores, como pode observar alguém que siga o tortuoso caminho até os originais. Maria Rita é a musa dos programas aguados que a Itapema almeja. Aguados, mas muito elegantes.

Por falar em cantoras, passei pela sala da televisão, e tive de deter-me um instante para ver a Vanessa da Mata. Com ela, a gerontocracia da MPB não foi tão má. Seu primeiro álbum resvala diversas vezes em temas aquém da capacidade dessa moça linda, mas possui momentos brilhantes e deliciosos. Bobagens, para encher lingüiça, como Case-se Comigo e Delírio ficam pequenas diante de pérolas fofas como Não Me Deixe Só e Viagem, sem falar de Bem da Vida, a mais promissora, convenientemente fechando o álbum. Carta (Ano de 1890) é outra bela canção.

Vanessa tem a vantagem de compor o que canta, e isso coloca-a milhas a frente da concorrência ruminadora das mesmas fontes de sempre. Embora certas letras possam soar ingênuas, ela anda pelo caminho certo, aparentemente. Se souber expurgar as composições com dinossauros do calibre do Liminha, as coisas poderão ficar melhores ainda.

O problema é que ela entrou um pouco mais produzida do que deveria. O primeiro disco, na minha visão, deve conter apenas o germe da beleza, deve ser imperfeito, com arestas, mas com personalidade. O artista deve firmar o pé em um ponto firme, de onde partirá pela sua viagem criativa. Vanessa quase conseguiu isso, e suas caretas de desaprovação diante do ridículo Faustão, na tarde de hoje, deixaram-me ainda mais esperançoso.

O Brasil merece uma menina linda como ela, compondo e cantando!

Ah, agradecimentos ao Humberto Mac, o popular High School Lover, por me apresentar esta moça.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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Uma resposta para Sobre o Tempo

  1. Pooh disse:

    Tenho que concordar com o que foi dito sobre a filha da Elis Regina, quer dizer, Maria Rita…

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